RETRÔ | Quando o Botafogo foi “saudadeado” pela Caprichosos de Pilares

Caprichosos1985

“Tem bumbum de fora pra chuchu,
Qualquer dia, todo mundo nu”

Com esse refrão, a G.R.E.S. Caprichosos de Pilares foi para o desfile de 1985 na boca do povo. O enredo, “E por falar em saudade”, era, ao mesmo tempo, uma crítica aos rumos da folia — que mudara de patamar com a inauguração do sambódromo da Marquês de Sapucaí, no ano anterior — e uma ode ao Brasil de outros carnavais. Em especial, dos carnavais pré-Ditadura Civil e Militar, que já (ou finalmente) estava nas últimas.

Exaltava-se “o bonde, o amolador de faca, o leite sem água, a gasolina barata” e, numa licença temporal, também “aquele Seleção nacional”, de que “derreteram a taça, na maior cara de pau” (menção ao Brasil tricampeão mundial de 1970, já nos tempos da “dita cuja”). É aí que, na ponte do samba, chega o seguinte verso:

“Bota, bota,
bota fogo nisso”

Pronto: o Fogão, que não ganhava nada desde 1968, tinha entrado na lista de “saudades” da Caprichosos. Saudade que, bem ao estilo de então da escola, foi traduzida na galhofa: um grande carro alegórico em formato de bolo, onde um destaque ostentava a estrela solitária em meio a velas que “comemoravam” os então 16 (e que seriam 21) anos da fila alvinegra. E com exibição em rede nacional, nas transmissões de Globo e Manchete.

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Providências do clube quanto ao uso indevido de sua marca — como fez, recentemente, contra o coletivo de humor Porta dos Fundos — ou “difamação institucional”, ou coisa que o valha? Nenhuma. Eram outros tempos, com (muito) menos consciência de marketing e (muito) mais bom humor.

Ficou-se assim: o Botafogo, esportivamente, riu de si mesmo (e o faria até recuperar o sorriso de campeão, no Campeonato Carioca de 1989); e a Caprichosos, na força do Fogão, do refrão de “bumbum de fora” e de um verso que peitou a censura — “Diretamente, o povo escolhia o presidente” —, alcançou o quinto lugar na apuração, seu melhor resultado de sempre.

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“E por falar em saudade” foi reeditado pela Caprichosos em 2010, mais uma vez com o “Bota, bota, bota fogo nisso”. Dessa vez, com menos sentido, já que o Fogão havia conquistado o Carioca em 2006 e repetiria a dose justamente naquele ano. Atualmente, quem está mais na saudade é a esola de Pilares, que amarga a Terceirona do carnaval. E em General Severiano, o sonho é dar fim a uma saudade que dura desde 1995: ganhar um título de elite fora do Rio.

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Thiago Zanetin tem 32 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Europa.

Imagens: Divulgação.

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