YO LE VOY AL NECAXA | Seu Madruga e a resistência boleira “escondida” em Chaves

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O último dia 9 de agosto marcou mais um ano — e já são 38 — de saudade de nosso querido Don Ramón Valdés, o Seu Madruga, de “Chaves” (“El Chavo del Ocho”). E isso vai nos dar a oportunidade de contar (ou, se você já conhece, relembrar) a história de uma das muitas referências boleiras do seriado: a do bordão “madruguiano” Yo Le voy al Necaxa — ou “Eu sou Necaxa” em tradução livre.

Dificilmente traduzível para o português — principalmente se considerarmos a quase nula exposição internacional do “Mexicanão” nos anos 1980, quando Chaves começou a ser exibido no Brasil —, esse bordão foi adaptado de diversas maneiras (como, por exemplo, “Olha, eu não to na minha casa”), e era usado sempre que Seu Madruga se sentia desconcertado em alguma conversa, por querer se mostrar ora igual, ora diferente.

Era a mesma dicotomia que viveram os torcedores do Necaxa: iguais porque, como todos, desejavam torcer para o clube de seus amores; e diferentes porque, naqueles tempos, torciam para um clube que já não existia.

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Vamos começar pelo começo. O Necaxa foi fundado em 1923, a partir da fusão de Tranvías e Luz y Fuerza, duas equipes amadoras com raízes na indústria de eletricidade e energia. Ou seja, um quadro popular, que, não por acaso, seria conhecido como los electricistas. E que cresceria muito na década seguinte, quando, ao som de títulos, o clube receberia seu apelido mais famoso: el campeonísimo.

Àquela altura, o Necaxa era o clube mais importante e, junto com Club América e Atalante, um dos mais seguidos do México. Tudo, porém, foi perdido em 1943: por não concordar com a profissionalização do futebol mexicano — e para facilitar a venda do Parque Asturias, seu velho estádio —, o campeonísimo fechou as portas.

Seus torcedores, porém, seguiram yendo al Necaxa, que foi refundado pelo Sindicato Mexicano de Electricistas — o que anteciparia em algumas décadas o atual conceito de community club — e passaria a participar, com dificuldades, em ligas. O retorno à elite se deu em 1950, num dos lugares vagos pelos extintos España e Asturias; mas o estrago já estava feito. Redimensionado, o Necaxa perdera apelo; custava-se a crer que aquele time, repescado e sofrível em campo, era o campeonísimo da romântica era amadora — porque, de fato, não era. O título da Copa do México, em 1960, e uma surpreendente vitória conta o Santos de Pelé, em 1961, foram as exceções que confirmaram a regra.

As coisas piorariam em 1971, quando o Necaxa seria vendido a um consórcio de empresários espanhóis, que, sem qualquer consulta popular (uma péssima prática, que ainda se mantém), mudariam seu nome para “Atlético Español” e sua alcunha para los toros. Foi um golpe duro demais para a torcida, que interrompeu o apoio e passou a cultuar a imagem de um Necaxa que já não existia.

É aí que entra a importância de Don Ramón Valdés. Porque “El Chavo Del Ocho” estrearia em 1972, logo após o Necaxa ter sua identidade adulterada. E, com seu bordão Yo Le voy al Necaxa, Seu Madruga se tornaria o grande símbolo de resistência entre os torcedores do campeonísimo, que preferiam dar seu apoio a clubes amadores locais do que se dedicar àquele Atlético Español (que seria “só” campeão da CONCACAF).

Uma percepção brilhante de Roberto “Chespirito” Gómez Bolaños, (intérprete do Chaves e roteirista da série), que, embora americanista — se bem que antes torcesse pelo arquirrival Chivas —, contribuiu para manter o Necaxa vivo no imaginário mexicano e, de quebra, ajudou a diferenciar Madruguinha.

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O que veio depois é história recente: em 1982, o Atlético Español seria vendido para a Televisa e voltaria a ser, definitivamente, Necaxa, que, desde então, segue sua vida, entre revendas nos bastidores, alterna altos e baixos — do título na CONCACAF de 1999 e terceiro lugar no Mundial de Clubes FIFA 2000 aos anos recentes na Segundona — e um apoio de arquibancada consistente, mas, em números, mais modesto em relação a outros grandes do México. Don Ramón Valdés nos deixou fisicamente em 1989, mas, em sinal de gratidão, sua imagem segue presente nos jogos do clube.

Mais do que isso, o “necaxismo” do Seu Madruga segue no imaginário popular, como comprovou, há alguns meses, o meio-campista chileno do Necaxa, Edson Puch, que propôs utilizar uma camisa 72 — o número da casa de Don Ramón na vila do Chaves — em homenagem a toda essa história. Esperamos, sinceramente, que isso seja considerado pelo clube e sua nova fornecedora esportiva, a Charly Fútbol.

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Querido Don Ramón, que essa vida lhe tem sido leve. E que a eternidade continue a lhe ser generosa. Te queremos mucho.

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Ah, a “poprósito”: contamos com a ajuda do FÓRUM CHAVES na revisão de alguns fatos e curiosidades. Zaz, amigos!

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Thiago Zanetin tem 31 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Europa.

Imagens: Divulgação.

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