Superliga Argentina: bem mais super para os grandes

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Nós pedimos e se realizou: no próximo dia 25, terá início a Superliga Argentina de Fútbol-SAF. Mas, infelizmente, ela não será realizada como se planejava: mantém-se a administração direta dos clubes com a Associación de Fútbol Argentina-AFA como reguladora, mas apenas para a ex-Primera Divisón; a Segundona (B Nacional) ficou fora do pacote — assim como as demais séries inferiores já estavam — e, consequentemente, excluída do novo acordo de TV, a razão de existir da SAF.

Explicando: o futebol argentino é “TV-dependente” até o osso. Mesmo os (poucos) clubes com as contas em dia têm no broadcasting uma parte substancial, se não a maior, de suas entradas. Entradas que estavam prestes a desaparecer quando o atual presidente argentino, Ricardo Macri, anunciou que, após 2016-17, fecharia (como de fato fechou) a torneira do programa estatal kirchnerista “Fútbol para Todos”, que englobava elite e Segundona. Para não entrar em colapso, o futebol hermano se unir em uma negociação e TV. Pronto: Superliga criada.

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A negociação deu certo: o campeonato será transmitido — e sublicenciado — pelas operadoras Turner (que criou um canal a cabo exclusivo, TNT Sports) e FOX (FOX Sports Premium), que, juntas, desembolsarão AR$ 17,2 bilhões até 2022, sendo AR$ 3,2 bilhões por temporada; e AR$ 1,2 bilhão de “pagamento mínimo” para a AFA. O que deu errado foi a divisão dessa verba: a representação da B Nacional exigiu um repasse de 25% do contrato, mais do que o dobro em relação à oferta inicial de 12%. Sem acordo.

Dessa forma, a B Nacional continua subordinada à AFA, que estima uma diminuição imediata de 20% a 22% em suas entradas com a perda do controle de TV da ex-Primera Divisón para a Superliga — mesmo embolsando o já citado AR$ 1,2 bilhão de “pagamento mínimo”. Ou seja, se os investimentos na B Nacional — e em todas as séries menores — já eram mínimos, agora tendem a ser mínimos e “justificáveis”. Como dificilmente existem clubes no azul em campeonatos no vermelho, os clubes da Segundona não chegarão à elite nas melhores condições financeiras. E começa aí outro problema.

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Em seu primeiro ano, os clubes promovidos da B Nacional, Argentinos Juniors e Chacarita Juniors, vão entrar na quarta e última faixa de repasse da TV — atrás de outros 20 clubes, terceira; San Lorenzo, Racing, Independiente e Vélez, na segunda; e Boca Juniors e River Plate, que juntos representam 50% do total, na primeira. Isso quer dizer que, além de virem de uma temporada provavelmente deficitária, terão menos fôlego para competir pela permanência.

Há, ainda, a possibilidade de que essa partilha mude a partir de 2018=19: 50% do valor dividido igualmente + 25% de acordo com o total de jogos transmitidos + 25% por méritos esportivos. Melhora o sistema, mas a situação geral — afinal, qual a chance de que, entre um jogo do River e outro do Chacarita, escolham para a grade de transmissão o do Chacarita? As TVs precisam ter retorno e, à parte eventuais pacotes de pay-per-view, vão se debruçar sobre os grandes — que vão se debruçar sobre a grana. E, com mais verba para os maiores clubes, surpresas como as participações de Atlético Tucumán e Godoy Cruz na Libertadores (leia-se: o interesse dos torcedores no campeonato, sabendo que seus times não entram só para “cumprir tabela” e raspar o tacho das vagas que faltam na Sul-Americana) devem ficar só na lembrança.

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Concluindo: a Superliga é necessária para que o futebol argentino não entre em colapso imediato. Da maneira que está estruturada, porém, sua divisão de TV tende a criar um gap que prejudicará seu maior ativo atual: a competitividade. Mais: a “TV-dependência” do Fútbol para Todos não foi resolvida, mas intensificada, além de jogar contra as novas possibilidades de transmissão esportiva que estão surgindo. Está-se pendendo a oportunidade de reforçar, mais do que um campeonato, um sistema de futebol (como faz, por exemplo, a Alemanha). Em vista das alternativas (ou da falta delas), é melhor do que nada. Mas é uma pena, mesmo assim.

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Thiago Zanetin tem 31 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Europa.

Imagens: Divulgação.

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