Sonho quebrado: a Ancona do futebol popular também faliu

ancona1_1_COR

Se você acompanha o nosso FutMKT há algum tempo, sabe o quanto somos partidários do que chamamos de futebol popular — ou seja, o envolvimento direto dos torcedores na vida administrativa dos clubes, inclusive como proprietários. Já relatamos aqui diversos exemplos de que o modelo pode funcionar. Mas, hoje, vamos falar (e refletir) sobre um caso que degringolou: o do Ancona 1905.


ancona2_1

Há pouco mais de um ano e meio, repercutimos, com entusiasmo, a notícia de que o clube dorico, então se reerguendo de sua segunda falência em menos de dez anos, passaria definitivamente às mãos da Fondazione Unione Anconitana, constituída pela associação popular “Sosteniamolancona” — uma das artífices dessa retomada, então com apenas 2% das ações. O momento era propício, com a Ancona 1905 de volta à atual Serie C, o último degrau profissional da Itália, e assim foi feito: estava constituída a primeira società popular do calcio che conta.

O calcio che conta, porém, tem um custo alto — por ser profissional e, no caso da Terceirona italiana, deficitário. Mais custoso ainda era envolver num projeto de vértice nacional uma praça provinciana como Ancona, que, abalada pelas últimas quebras e desfiliações, torcia, e torce, cada vez menos pela Ancona 1905. E foi aí nesse cenário que, infelizmente, deu-se um passo maior do que as possibilidades: na esperança de que bons resultados gerariam credibilidade, a “Sosteniamolancona” trocou o apoio sustentável dos torcedores por investidores, e colocou mais dinheiro do que poderia — do que tinha — para chegar à Serie B. O acesso pagaria a conta. Mas bateu na trave.

Após a temporada 2015-16, a Ancona 1905 continuava na Serie C, mas no vermelho. As dívidas com o elenco minaram a formação do time de 2016-17 e quase impediram a inscrição no torneio. Daí para frente, o roteiro foi uma reedição dos piores anos doricos: jogadores sem receber, dissociação em massa do acionário popular, projetos interrompidos, arquibancadas vazias, descrença da cidade e, claro, rebaixamento. No final de 2016-17, havia duas alternativas: ir à amadora Serie D com um déficit de € 2,2 milhões — que só tenderia a aumentar — ou falir. Faliu-se. Pela terceira vez em 13 anos. Adeus, “Sosteniamolancona”.

E faliu-se como nunca antes. Porque dessa vez, não há projeto alternativo: após 112 anos, a Ancona 1905 desapareceu. Ficará, na melhor das hipóteses, uma temporada inativa, até que alguém — um empresário, um consórcio ou, quem sabe, um novo grupo de torcedores — a reconstitua, para recomeçar, mais uma vez, das divisões amadoras regionais.

ancona_5

É paradoxal que o pior capítulo da história do futebol em Ancona tenha sido escrito sob administração de quem mais o ama: os seus torcedores. Paradoxo que tem municiado a imprensa italiana contra o modelo do futebol popular — a Gazzetta dello Sport chegou a definir os idealizadores da já ex-“Sosteniamolancona” como “aventureiros”. Será realmente assim? E outro ponto: o futebol profissional é o limite dos torcedores-administradores?

Para essas duas perguntas, nossa resposta é a mesma: não. Primeiro por entendermos que o problema da Ancona 1905 está mais na forma como o clube é percebido em sua praça do nas iniciativas para geri-lo — afinal, da sociedade por ações ao futebol popular, faliu-se de todas as formas possíveis. E, segundo: se o futebol popular não fosse viável no profissionalismo, jamais explicaríamos o sucesso da Regra 50+1, que mudou o patamar mundial da Bundesliga, e de realidades como o AFC Wimbledon e, até recentemente, o Portsmouth? Mais do que isso: por que, mesmo em meio a mil dificuldades, a Orgoglio Pratese, associação popular que gere o AC Prato, continua viva na mesma Serie C da qual a Ancona 1905 despencou?

ancona3

O que faltou para a Ancona 1905 — e, de resto, falta em muitos outros lugares — é um endosso institucional das ligas profissionais ao futebol popular como modelo de gestão. Isso já existe na Alemanha (RB Leipzig, Bayer 04 Leverkusen e Hoffenheim à parte), Suécia, Escócia, País de Gales e, em parte, na Inglaterra. Ainda não existe na Itália. E enquanto não existir, o dito azionariato popolare poderá apenas subsistir discretamente, mais nas séries amadores do que nas principais. Desejamos melhor sorte no renascimento dorico. E que, com a mesma persistência de quem irá ao estádio mesmo depois disso tudo, que exista nesse retomada mínimo de futebol popular. Não se pode desistir do sonho.

ancona_4

l

Thiago Zanetin tem 31 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Europa.

Imagens: Divulgação.

l

Siga o Futebol Marketing nas redes sociais: facebook | twitter

Category: Marketing