Se o ticket médio de um jogo da Seleção chega a quase 40% do salário mínimo

Abra a carteira agora: você tem R$ 368,67 na mão? E se tem, pode gastá-los de uma só vez? Pois foi esse o ticket médio — a média de preço do ingresso, obtido quando dividimos os R$ 15.118.391,02 de bilheteria pelos 41.008 espectadores — de Brasil 3×0 Chile, ontem (10), no Allianz Parque, em São Paulo-SP, pela última rodada das eliminatórias para a Copa do Mundo FIFA 2018. Exatos 39,34% de um salário mínimo, atualmente em R$ 937,00.

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Essa cifra é descolada de qualquer parâmetro da realidade. Primeiro porque é quase o sêxtuplo do ticket médio praticado ao longo de 2017 pelo Palmeiras (hoje em R$ 62,00), dono da casa e dos ingressos mais caros do País. E segundo porque, de acordo com a Prefeitura de São Paulo (dados de 2010), a renda individual do paulistano — o público local de Brasil x Chile —, é a seguinte:

— 37% até R$ 468,00 (equivalente a meio-salário);
— 11% de R$ 468,00 a R$ 973,00;
— 24% de R$ 973,00 a R$ 1.874,00;
— 17% de R$ 1.874,00 a R$ 4.685,00;
— 7% de R$ 4.685,00 a R$ 9.370,00;
— 4% de R$ 9.370,00 para mais.

Se você, paulistano ou de qualquer cidade, trabalha e paga contas, entendeu perfeitamente que o preço de Brasil x Chile foi desenhado, com segurança, para 9% desse público, ou seja, as pessoas que concentram de R$ 4.685,00 a mais de R$ 9.370,00 — podemos incluir também o “meio para frente” faixa entre R$ 1.874,00 a R$ 4.685,00.

O paulistano médio, na base dessa pirâmide de renda per capita, que concentra de R$ 0,00 (ou seja, concentra nada) a R$ 973,00, nunca poderia pagar pelo ticket médio desse Brasil x Chile — e a faixa que vai até R$ 1.874,00 só conseguiria com muita (mas, muita) economia e parcelamento.

É a Seleção saindo dos braços do povo para os bolsos de uns poucos. E não só em São Paulo.

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Em seus nove jogos como mandante nas eliminatórias, a Seleção (leia-se: a CBF) faturou R$ 70.073.561,00, com tickets médios que foram de R$ 69,00 — na Arena Castelão, em Fortaleza — aos R$ 386,00 de ontem, no Allianz Parque. Todos, sem exceção, muito superiores em relação aos donos dos ingressos mais caros de cada Estado (além de SP, que recebeu dois jogos, e CE, os demais foram BA, RN, PE, AM, RS e MG), e nenhum abaixo do Palmeiras — que, repetimos, tem a arquibancada mais cara do País.

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“Onde vocês querem chegar com esse papo?”, você se pergunta. Mas a pergunta, aqui, é outra: onde isso vai parar?

Não é possível que a Seleção nos seja expropriada dessa forma. Não é possível que o torcedor comum, você, que fez do futebol a paixão de massa que é, seja excluído do jogo dessa maneira. Você, que não pode pagar para assistir ao Brasil no estádio, mas que é sistematicamente usado pela CBF como estatística — audiência de TV e rádio, seguidor de mídias sociais, potencial de consumo — na hora de fechar patrocínios, negociar direitos de transmissão, etc. É por causa de você que as coisas acontecem. E por que você não pode ver acontecer in loco?

“Mas quem organiza o jogo tem o direito de focar no público que quiser.” E ninguém está dizendo que não tem. O que estamos dizendo é que o foco deve ser revisto. O torcedor de baixa renda também consome, dentro de suas possibilidades: se ele tiver à disposição uma camisa popular, ele compra; se tiver uma arquibancada popular, ele vai; se for contemplado, ele responde. “Mas isso diminuiria o faturamento da CBF.” Ah, por favor; a CBF é rica, riquíssima. Se desses mais de R$ 70 milhões faturados nas eliminatórias R$ 5 milhões fossem investidos para trazer de volta aos estádios os torcedores populares — os que vão mais por paixão do que por lazer —, a diferença seria assim tão grande? Estamos pedindo tão pouco. Queremos apenas que você também (veja bem: não “só você”, mas você “também”), bravo labutador da pátria, que ama a Seleção, possa assistir a um jogo de Neymar Jr., Gabriel Jesus e companhia sem ter que deixar quase 40% de um salário mínimo na bilheteria.

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A grande imprensa que comemore o recorde de arrecadação do Allianz Parque (ah, sim: os R$ 15.118.391,02 de ontem constituem a maior renda do futebol brasileiro em todos os tempos) e enalteça os números da CBF. FutMKT está do lado quem ama a Seleção e não pode dividir o seu amor no estádio. Deselitização e arquibancadas populares já.

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Thiago Zanetin tem 32 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Europa.

Imagens: Mauro Hirota/MoWA Press (1); Nelson Almeida/AFP (2 e 4); Divulgação (3).

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