Rua Javari, domingo, 10 da manhã

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Nós mesmos que recomendamos: assistir a um jogo do Clube Atlético Juventus, numa manhã de domingo, na Rua Javari (o endereço do estádio Conde Rodolfo Crespi, a casa grená, no bairro da Mooca, Zona Leste de São Paulo), é um programa que todo apaixonado por futebol deve fazer. E, depois de tanto ir até lá, resolvemos documentar a nossa experiência. Grande experiência, aliás: escolhemos justamente o quentíssimo “Clássico dos Imigrantes”, contra a Portuguesa, pela Copa Paulista — que dá ao vencedor uma vaga na Série D do Brasileirão. Vamos nessa?

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Nossa história começa pelas 9h20, na Rua da Mooca, paralela à Rua Javari, onde saltamos do ônibus. Estamos a poucos quarteirões do estádio. E, como quisemos ir a caráter, paramos antes na Camiseteria di Mooca, que fica pelo caminho, na Rua Visconde de Laguna. As bandeiras juventina e mooquense na fachada — e as pessoas que passam por ali, ostentando o “J” de seus brasões em camisas e bonés — não deixam dúvida: estamos em território grená. Lá dentro, encontramos, além da atual coleção de jogo, treino e viagem assinada pela Super Bolla, inúmeros produtos licenciados: camisetas casuais, réplicas de mantos retrô, cachecóis, bonés, chinelos, acessórios, réplicas do estádio e até um avental de “MoocaChef” — brincadeira com o reality culinário Masterchef Brasil. O atendimento foi ótimo, muito atencioso, e nos tentou a comprar um pouco além do que desejávamos. Não resistimos.

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Saindo da Camiseteria di Mooca, caímos direto na Rua Javari, bem no quarteirão do estádio Conde Rodolfo Crespi. Era uma agitação de grandes ocasiões: estacionamentos cheios, famílias inteiras e gente animada, falando alto — com aquele sotaque “italianês paulistano”, de vogais cheias e poucos plurais, bem ao estilo do mooquense. Rondando por ali, alguns veículos de imprensa interpelavam as pessoas perguntando “o porquê de assistir a um Juventus x Portuguesa se, só um pouco mais tarde, teríamos um Choque-Rei entre Palmeiras x São Paulo, no Allianz Parque”.

Parte desse porquê pôde ser encontrado a poucos passos do estádio, no Bar do Cebola, o ponto de encontro e concentração da organizada juventina Setor 2 — a primeira barra do Brasil. Quando passamos por lá, ouvia-se um coro anti-Portuguesa:

“Quando vêm jogar aqui na Mooca
Ficam todos chorando
Vendo a festa da nossa maloca”

Tivemos a ideia de registrar um pouco dessa cultura de torcer, mas fomos “convidados” (sem violência, mas com ênfase) a não tirar fotos ou filmar nada. Sem bronca: eles estavam no direito — e na casa — deles. E, com ou sem registro, o que deve ficar é a importância da Setor 2, que, embora pequena em número, é grande em sua mentalidade popular. Basta sabermos que, em 2004, quando o Juventus despencou para a Série A2 do Paulistão (onde, aliás, figura novamente), esse pessoal se uniu para mostrar a todos — ao futebol paulista, à Mooca e à própria diretoria — que o Juve tinha, sim, torcida (ou alento, como eles preferem) e não poderia acabar. A partir deles, houve uma retomada do orgulho grená, e muito dessa aura cult que o clube adquiriu vem da atitude desse grupo.

Ainda antes de entrarmos, demos a volta no estádio pela Rua dos Trilhos, para acompanhar a movimentação dos torcedores da Portuguesa. Batuque e cantoria à vontade, da Leões da Fabulosa e de torcedores “à paisana” — mas, também ali, nada de foto ou vídeo para nós. Paciência: ainda que não estivessem em casa, também estavam no direito deles. Hora de entrar na catedral de bairro.

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Enfim, entramos. E cruzar os portões da Javari tem todo um efeito. É como entrar num pátio — um cortile italiano, onde tudo acontece: à esquerda, a loja oficial Grená e Branco, os bustos de Clóvis (ídolo máximo juventino) e Pelé (homenageado pelo lendário gol que marcou na cancha grená), e a banquinha dos famosos cannoli, de creme e chocolate, do Seu Antonio; à direita, a lanchonete e o Moleque Travesso mascote tirando fotos com as famílias; e à frente, uma tentativa de túnel que conduz aos alambrados — onde, logo de cara, vemos um painel com fatos históricos.

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O palco do espetáculo desperta odes românticas — principalmente nesses tempos de arenas pós-Copa 2014: a arquibancada, irregular e numerada para ninguém, é de cimento; as numeradas são tão de outra época que não sabemos quem sustenta o quê — se ela à marquise ou se a marquise a ela; o alambrado é retorcido e, aparentemente, magnético, tantas eram as pessoas que já guardavam suas posições por lá, fixas, enquanto as equipes apenas se aqueciam no gramado.

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Fomos para o Setor 2, debaixo das árvores, atrás do gol à esquerda. De cara, sentimos falta de faixas e bandeiras que costumávamos ver presas nas grades: uma em que se lia Origine Operare — que, embora gramaticalmente errado (o correto seria origini operaia, “origem operária”) era simpática —, outra com “Loucura e Travessura”, e mais outra, com o rosto de Seu Madruga. Sentiríamos alta também dos trapos e guarda-chuvas (ou guarda-sóis?) de barra que vimos em outras oportunidades. O astro do local, porém, continuava lá: o velho placar manual, que, excepcionalmente, marcava “PORTUGUESA” em vez de “VISITANTE”.

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E aproveitando que estávamos perto da torcida da Lusa, finalmente fizemos nossa foto — em meio a “elogios” e “sugestões” de onde deveríamos enfiar nossa câmera. Àquela altura, os rubro-verdes ainda estavam entrando; em pouco tempo, ocupariam todo o setor hóspede — numa quantidade que, às vezes, não se vê nem no Canindé.

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Mais uns minutos e a barra tomaria seu espaço no Setor 2. Coros de exaltação à Mooca — “Bairro de luta e tradição”, “Esse é o bairro onde eu vou morrer, na Javari” — contrastavam com os insultos e provocações que choviam de lá para o espaço dos torcedores da Portuguesa e vice-versa. Do lado oposto da cancha os bumbos da já veterana Ju-Jovem contrastava com a bateria dos Leões da Fabulosa e temperava mais o clima. Quando a bola rolou, o estádio já estava tomado por quase 4 mil pessoas — muitas delas devorando seus cannoli. Nós ficamos um pouco longe do torcidão, mas entre amigos — os de sempre e os que fizemos naquele domingo; sempre há bons papos na Javari.

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Entre resenhas, o jogo foi se desenrolando. Confessamos, porém, que o gramado quase ficou em segundo plano; passamos a maioria do tempo admirando as torcidas. A barra juventina desfiou um rosário de cantos argentinos adaptados — incluindo a incorretíssima, e deliciosa, El vino y la droga, da Popular do Newell’s Old Boys —, enquanto os rubro-verdes atacaram de “Horto Magiko” e, a certa altura, o fado “Uma Casa Portuguesa”. Era um duelo de volume: uma torcida abafava a outra seguidamente. E, em meio a essa rivalidade, enxergamos uma cumplicidade: afinal, entres grenás e lusitanos, estão todos no mesmo barco, lutando pela sobrevivência de seus clubes e da sua maneira de viver a paixão pelo futebol.

Dentro de campo, a Portuguesa resolveu o jogo no primeiro tempo: 1×0, que encaminha sua classificação à próxima fase e complica muito o Juventus. A frustração foi descontada nos cannoli, com uma fila gigantesca no intervalo — tão grande que, bem antes de chegar a nossa vez, já tinha acabado. De volta às arquibancadas para a segunda etapa, os reservas da Lusa “nos brindaram” com um aquecimento bem próximo aos alambrados do Setor 2, dando a deixa para todo tipo de provocação dos torcedores grenás:

— Ser reserva desse time deve dar um desânimo, hein, meu?

— Não adianta correr, vocês não vão entrar, não.

— Ô, goleiro, ou se aquece ou sai fora. Não fica parado na minha frente que eu paguei “20 conto” no ingresso.

— Porra, domingo, dia de ficar com a família, e você veio aqui só para não jogar, hein?

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Perto das 12h, ouvimos os três apito do árbitro: fim de jogo. Comemoração enlouquecida dos torcedores lusitanos e prontas respostas, cheias de orgulho e ironia, por parte dos juventinos — com um impublicável coro sobre “uma certa Dona Maria”. Saindo em meio à massa, com a certeza de que vamos voltar muito mais vezes. Valeu, Juva. Valeu, Lusa. Valeu, Javari.

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Thiago Zanetin tem 31 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Europa.

Imagens: FutMKT.

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