“Parem esse futebol, que eu quero descer”: carta a um ex-Barcelona

barca_catalunya_001

Em 2011, o Barcelona, que pagava para exibir o logo da UNICEF na cota máster de sua camisa, venceu o espaço à Qatar Airways. Foi o primeiro negócio do tipo em uma instituição até então mantida quase que exclusivamente por seus sócios. Foi também o marco-zero de um novo Barça, que, além do futebol-marca — como bem definiu Ferran Soriano, ex-Diretor Financeiro culé e hoje CEO do Manchester City, em seu livro-referência “A Bola Não Entra Por Acaso” —, entrou de vez na corrida das cifras do “futbusiness”. Entre as reações mais extremadas, a do mito blaugrana Johan Cruyff, para quem o Barcelona deixava de ser mês que um club para se tornar “só mais um clube”.

Exagero? Em parte, sim. O futebol já estava mudando em ritmo acelerado naquela época, e, ainda que viesse de uma tríplice coroa Liga-Copa-Champions, o Barcelona buscava novas receitas para manter seu padrão competitivo mundial. Tudo, então, tornou-se vetor financeiro: a camisa ganhou mais marcas; o Camp Nou, mais turistas e menos torcedores locais (a ingressos bem mais caros); o time, mais contratações internacionais e menos gente de cantera de La Masia — que passou, também ela, a ser uma das “propriedades de marketing” do portfólio; a “Senyera”, o símbolo catalão, mais presença em licenciamentos; e daí por diante.

Hoje, fala-se de um Barça empenhado em faturar € 1 bilhão num só temporada, e que rivaliza com o velho inimigo Real Madrid mais em cifras do que em bola e ideologia. Não terá o Barcelona, então, perdido a mão, e um pouco da sua identidade, nesse jogo do “futbusiness”? Há quem pense que sim. E é sobre isso que você vai ler agora. Abaixo, FutMKT traduz a carta-aberta de um barcelonista anônimo, publicada originalmente no site “FANVOX” e que vimos na página espanhola “Wanderers, El Fútbol Del Pueblo”. Nela, está o retrato de um Barcelona que o torcedor já não reconhece, e com o qual já não se identifica.

Talvez você ache um relato “romântico demais”, mesmo “brega”. Talvez, ainda, não entenda como nós, que falamos de marketing no futebol e exaltamos os números do Barcelona possamos publicar esse tipo de coisa — talvez você nos ache contraditórios. Sem problema: você pode tudo isso. Mas nós realmente achamos que, volta-e-meia, é bom refletir sobre até onde podemos ir, quais os limites dessa tabelinha entre futebol e negócios. E, lembremo-nos, esse torcedor do Barça, no fundo, é como vocês e nós: quer apenas torcer pelo mesmo clube que ama desde sempre. Vamos nessa?

l

PAREM ESSE FUTEBOL, QUE EU QUERO DESCER

barca_mes_que_un_club_001

Em 1968, o presidente do Fútbol Club Barcelona, Narcís de Carreras, tomou posse e proclamou a célebre frase que define uma das entidades esportivas mais importantes do mundo: El Barça és más que un club. Durante todos os anos de minha vida, sempre senti que essa sentença representava perfeitamente o sentimento de todo culé. Mas já não é assim. Hoje, sinto que é só um slogan, e não um motivo de orgulho.

barca_messi_001

Dia desses, me dei conta de que, há muito tempo, o Barça deixou de ser más que um club. Começou quando assinou com a Qatar [Airways] e relegou a UNICEF às costas da camisa. Essa famosa ONG chegou a ser o orgulho de uma equipe que marcou tendência, que teve 3 de seus jogadores formado em La Masia indicados à Bola de Ouro, sendo este o reconhecimento de toda uma filosofia e idiossincrasia institucional. Com estilo de jogo e com valores. Valores que, há anos, deixaram de existir.

barca_abidal_001

Valores como o de [Éric] Abidal levantando o troféu da Champions League após vencer o câncer. O valor de pagar para estampar um patrocínio — e não o contrário —, e seguir ganhando títulos. De chegar a ter em campo 11 jogadores formados em La Masia — algo com que o holandês Van Gaal um dia sonhou; porque o objetivo dessa escola não é ensinar a jogar, mas transmitir valores para que se jogue. Do primeiro triplete com a UNICEF no peito abaixo de um escudo que representa a cidade de Barcelona, onde se encontra a bandeira da Catalunha. Como dizia [o escritor] Manuel Vázquez Montalbán: “O Barça é o exército simbólico e desarmado da Catalunha, uma nação sem Estado e, portanto, se exército”.

O Barça, que meus avôs iam ver no velho campo de Les Corts ou no Camp Nou, unicamente para falar em catalão — idioma proibido na Espanha de Franco, assim como o Vasco. Porque o Barça estava tão radicado na sociedade que o novo estádio jamais ganhou um nome; ficou conhecido apenas como “Campo Novo” [Camp Nou], e basta, todos sabiam a qual lugar se referia.

barca_cruyff_001

A gota d’água foi quando Johan Cruyff entregou sua insígnia de presidente honorário do Barcelona. Porque o Barça era ele, e Johan era o Barça — esse holandês revolucionário, que não estava de acordo com a ditadura franquista. Quem diz que o futebol não deve ser politizado, não entende nada. Glasgow, Bilbao e Marselha são algumas das cidades onde as equipes representam suas sociedades.

barca_turista_001

O Barcelona de “cantera contra cantera” não existe mais. Não existe também um Camp Nou que saiba cantar o hino, já que está cheio de estrangeiros com seus tablets, vivendo uma realidade alternativa, gravado todo o jogo sem sequer contemplar onde estão. Há torcedores mais bem equipados de câmeras do que os jornalistas. Turistas que celebram, no Camp Nou, os gols de Cristiano Ronaldo — como aconteceu na última Supercopa [da Espanha]. Como diria Mafalda [personagem de Quino]: “Parem o mundo, que eu quero descer”.

barca_ronaldinho_001

Sinto falta de uma equipe blaugrana que esteja orgulhosa de ser universal, mas que não dependa disso. Que não receba e nem dê benefícios a regimes totalitários como o do Qatar. Uma Barça representado por um Xavi e um Pujol com bandeiras bascas em homenagem à excelente, e amiga, torcida do Athletic Bilbao, após ganharmos uma final do Copa [del Rey]. De um Camp Nou onde falar Catalão não seja estranho. Onde não se celebram os gol do arquirrival quando nos vence. De não contratar “Neymares” provocadores que faltam com o respeito a torcidas adversárias escudando-se em seu “jogo bonito”. Porque Neymar provoca, não é como Ronaldinho.

barca_turista_002

Sinto falta de ir ao campo com minha família e amigos sem sentir que pago por um show de entretenimento, com preço de € 70,00 para um jogo contra uma equipe de menor potencial — inacessível para qualquer torcedor local que queira seguir constantemente o seu clube. De um Barça que seria o orgulho de Tito Vilanova, com gente de casa e jogadores de fora contratados corretamente, que representem os nossos valores.

O Barcelona é uma equipe plural, mas não devemos perder a nossa essência. Todo mundo é bem-vindo aqui. Respeitemos a nossa história: “Não importa sem vêm do sul ou do norte”, diz o nosso hino. É um sacrilégio vermos o logo da Qatar [Airways] em branco [cor de Real Madrid] sobre a nossa camisa. Falta pouco, então, para encontrarmos um turista que vai ao superclásico em Barcelona com a casaca 7 blanca de Luís Figo.

marado

Sempre tivemos os melhores, mas não a qualquer preço. Kubala, Cruyff, Maradona, Quini e Ronaldinho são alguns exemplos. Não estou de acordo com os € 145 milhões pagos por Dembelé; não por seu jogo, mas por entrarmos nesse jogo de cifras absurdas do futebol — como comentou o presidente do Bayern, Uli Hoeness, sobre a situação do mercado. Agora assistimos à migração do “#HinchaGoLondrina” com o ici c’est Paris, que prefere gravar em seu smartphone o hino da Champions do que cantar uma velha canção sobre os gols de Pauleta (rápido, consultem o Google).

barca_senyera_001

Somos os netos dos rebeldes que viveram 40 anos de uma ditadura fascista. Não somos Qatar. Somos Barcelona, para todos que queiram vir conosco. Mas sem perder de vista de onde viemos. Més que um club, sim, mas com motivos, argumentos e coerência. Em Barcelona, sempre recebemos todo mundo, sem distinção de condição ou origem, e com o orgulho de sermos uma sociedade integradora e multicultural. O Barça sempre foi a maior referência para qualquer recém-chegado à cultura catalã.

Mas não vejo nenhum indício de que essa situação possa mudar. Pela primeira vez, não me sinto representado por essa “franquia”. Olho com inquietude o Football Club United of Manchester e valorizo o que representam. E começo a imaginar e fantasiar. É disso que se trata o futebol: de sonhar. Não permitamos que nenhum empresa roube nossos sonhos.

l

Thiago Zanetin tem 31 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Europa.

Imagens: Divulgação.

l

Siga o Futebol Marketing nas redes sociais: facebook | twitter

Category: Marketing