MUNDO ALTERNATIVO | 5 “mundiais” que merecem ser lembrados

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Nem Intercontinental Cup, nem qualquer outro torneio. De acordo com o atual presidente da FIFA, Gianni Infantino, só é campeão mundial quem venceu a FIFA Club World Cup, competição organizada pela entidade desde 2000 (com hiato de 2001 a 2004). O veredito foi dado na última sexta-feira (27) ao jornal O Estado de São Paulo e, desde então, vem causando um reboliço dos diabos entre os “ex-donos do mundo”. Na pista dessa polêmica, FutMKT propõe uma terceira via: recontamos aqui as conquistas de cinco “mundiais alternativos”. Se lhes falta a homologação da FIFA, sobra a consagração da história e de seus torcedores. Será preciso mais do que isso? Com a palavra final, a própria FIFA. E, claro, você.

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Renton FC — 1887-88
Championship of United Kingdom
and the World (Reino Unido)

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Se as taças disputadas entre CONMEBOL e UEFA, duas federações continentais, já causam discórdia, imagine essa, jogada entre duas federações nacionais.

Como tudo, porém, há um contexto. Estamos no último quarto do século XIX. O futebol dá seus primeiros passos. E, normativamente, segundo as regras da The Football Association-FA, só existe no Reino Unido, com destaque para Inglaterra e Escócia, com suas ainda ativas FA Cup e Scottish Cup, respectivamente.

Foi um pouco antes desse período que o Renton-ESC despontou. Campeão da Scottish Cup em 1884-85, o clube engatou dois títulos seguidos na extinta Glasgows Merchants’ Charity Cup — uma espécie de “Supercopa de Glasgow”, onde o gigante Rangers-ESC já dominava —, em 1885-86 e 1986-87, e uma nova final na Scottish Cup.

O Renton-ESC era, portanto, uma equipe de ponta. E foi como tal que aceitou o convite para participar da FA Cup, em 1886-87, caindo na 3ª fase. Naquela mesma temporada, porém, tomou parte na segunda edição do torneio Championship of United Kingdom and the World, que opunha campeões das copas de Inglaterra e Escócia. A primeira edição foi, sem muito alarde, vencida pelo Hiberian-ESC, à custa do Preston North End. A vitória do Renton seria mais convincente: 4×1 sobre o West Bromwich-ING. Ou seja, se não foi o primeiro, foi o melhor “campeão mundial do Reino Unido”.

A fase de ouro do Renton-ESC prosseguiria, com mais duas Glasgows Merchants’ Charity Cup e, enfim, o sonhado bi na Scottish Cup, em 1888-89. Na temporada seguinte, o clube seria um dos fundadores da Scottish Football League, da qual foi expulso após cinco jogos, acusado de pagar os jogadores — um acinte à mentalidade amadora da época. O Renton-ESC voltaria à disputa, para ser rebaixado poucos anos depois. Em 1922, o clube deixou de existir. Mas a lenda do título mundial ainda permanece.

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Bologna — 1937
Tournoi International de l’Exposition (França)

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La squadra che tremare il mondo fa. Ou “O time que faz o mundo tremer”. Assim ficou conhecido o Bologna-ITA dos anos 1930. E não era para menos. Só na primeira metade da década, os rossoblù sagraram-se bicampeões da Copa Mitropa — a “Copa da Europa Central”, precursora da UCL —, em 1932 e 34, além de ceder dois jogadores para o primeiro título mundial da Azzurra. E abririam a segunda metade com dois scudetti seguidos: 1935-36 e 1936-37.

Esse handicap valeu ao clube um convite para a primeira e única edição do “Troféu Internacional da Exposição Artes e Técnicas Aplicadas à Via Moderna”, de 1937, em uma Paris às portas da II Guerra Mundial. Estavam lá cinco das equipes europeias mais fortes naquele período (Austria Wien-AUS, VfB Leipzig-ALE, Olympique de Marseille-FRA, Sochaux-FRA e Slavia Praga-CZE) e duas não tão fortes (Phöbus Budapest-HUN e Chelsea-ENG). Foi entre estes que o Bologna-ITA fez o mundo tremer: 4×1 no Sochaux-FRA, 2×0 no Slavia Praga-CZE e outro 4×1, na final, para cima do Chelsea-ING. Força, técnica e intensidade. Uma máquina de atacar, celebrada pela imprensa francesa, italiana e de todo o Velho Mundo. E que, na volta para casa, ainda levaria o scudetto de 1938-39.

Quem viu, não tem dúvidas de que esse título de Tournoi International de l’Exposition colocou o Bologna-ITA no topo do mundo nos anos 1930.

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Wolverhampton — 1954
Amistoso (Inglaterra)

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Basta a aclamação da imprensa para fazer de um clube campeão mundial? Se bastar, o Wolverhampton-ING é o mais legítimo de todos. Tudo aconteceu na primeira metade dos anos 1950, quando, ao mesmo tempo em que realizavam amistosos internacionais em busca de grana para as obras de iluminação do estádio Molineux — condição sine qua non para entrar de vez na era do futebol televisionado, que já tinha dado as caras por lá —, os wolves perseguiam seu primeiro título inglês.

A taça, enfim, veio, em 1953-54. E, no final de 1954, veio também o Honved-HUN, time-base da seleção húngara vice-campeã mundial do mesmo ano, e reputado como o melhor do planeta na época. Numa partida dramática, o Wolverhampton-ING venceu (3×2). E, como quem vence o melhor passa a ser o melhor, os wolves foram aclamados Inglaterra afora como o novo clube a ser batido. Sem taça e sem faixa — só na força das manchetes dos jornais.

A partir dessa vitória, o editor do jornal francês L’Equip, Gabriel Hanot, embasou ainda mais a sua ideia de um torneio interclubes europeu que substituiria a já decadente (e geograficamente limitada) Copa Mitropa. Duas temporadas depois, em 1955-56, nasceria uma certa “European Cup”, atual Champions League. E, mesmo com o domínio do Real Madrid de Di Stefano, o bicampeonato inglês de 1957-58 e 1958-59 manteve, ao menos na imprensa, o status dos wolves como um dos clubes mais fortes do mundo — ainda que, na própria European Cup, o time não fizesse jus à fama: em 1958-59, saiu na preliminar frente ao Schalke 04-ALE e, na temporada seguinte, parou no Barcelona-ESP, nas quartas de final.

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Bangu — 1960
International Soccer League (EUA)

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Numa época em que o soccer já era praticado, mas não tinha o menor espaço nos EUA, o empresário americano William “Bill” Cox, fanático por esportes — e, certamente, antevendo o mercado boleiro que seria aproveitado muitos anos depois, primeiro pela encarnação original da North American Soccer League-NASL, e atualmente pela Major League Soccer-MLS — resolveu bancar um torneio promocional, entre as melhores equipes disponíveis no cenário mundial.

O desequilíbrio geográfico era gritante. À parte o anfitrião New York Americans, a chamada International Soccer League foi completada por dez clubes europeus e apenas um sul-americano: o Bangu-BRA, que herdou a vaga destinada ao desistente Fluminense-BRA, campeão carioca de 1959. Nada que impedisse o torneio de conseguir a autorização (autorização não é organização, ok?) da FIFA, através do seu vice-presidente, Stanley Rous — em outros tempos, incentivador (incentivador não é organizador, ok?) da Copa Rio.

Os 12 clubes foram divididos em dois grupos de seis cada. O Bangu ficou na chave B. E, comandado por nomes como o bicampeão mundial canarinho Zózimo e um jovenzinho chamado Ademir da Guia, nadou de braçada: 4×0 na Sampdoria-ITA (5ª colocada na Serie A); 3×2 no Rapid Wien-AUS (campeão austríaco); 5×2 no Sporting-POR (vice-campeão português); 0x0 contra o Norrköping-SEU (campeão sueco); e 2×0 no Crvena Zvezda-SER (campeão da ex-Iuguslávia). Quatro vitórias e um empate, que garantiram um lugar na final.

No dia 6 de agosto de 1960, 25.440 pessoas foram ao Polo Grounds — estádio de football do New York Giants — para assistir ao triunfo do Bangu-BRA sobre o Kilmarnock-ESC, com dois gols de Valter. Destaque na imprensa do Tio Sam, delírio no retorno ao Brasil. Daquele momento em diante, Moça Bonita passaria a ser o centro da Terra para os banguenses — e justamente no ano em que começaria a disputa Intercontinental/Mundial entre os donos da Libertadores e Champions. A oficialização desse sentimento, porém, nunca veio.

A International Soccer League ainda teria outras duas edições: em 1961, com o Dukla Praga-CZE campeão e o Bangu-BRA ficando pelo caminho; e em 1962, com outra taça carioca, do América-BRA — que não encontrou o mesmo apelo folclórico do título banguense. O Mecão ainda disputaria o “American Soccer Challenge” entre os dois últimos vencedores da ISL, que acabou com nova vitória do Dukla.

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Alemanha Oriental — 1975
Pequeña Copa del Mundo (Venezuela)

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Em sua última edição — após um hiato de cinco anos e já com o nome oficial de “Trofeu Ciudad de Caracas” —, a “Pequeña Taça do Mundo” (nome original da disputa, pelo qual ficou conhecida) contou, pela primeira vez, com uma seleção nacional. E claro que, para fechar a história da competição com chave-de-ouro, seria esta a campeã. A Alemanha Oriental, que já havia feito boa campanha na Copa do Mundo FIFA do ano anterior, precisou de apenas dois jogos (1×0 frente ao Rosário Central-ARG e 2×1 ante o Boavista-POR) para levantar o título, que funcionou como uma avant première do ouro olímpico do ano seguinte, em Montreal, no Canadá.

De todos os vencedores da Pequeña Taça del Mundo, o único a, ainda hoje, dar peso mundial à conquista é o Millonarios-COL. O Brasil também tem história no torneio, com os títulos de Corinthians (1953) e São Paulo (1955 e 1962) — todos aclamados pelo público e pela imprensa brasileira em suas épocas. Real Madrid-ESP, Barcelona-ESP, Valencia-ESP, Athletic Bilbao-ESP e Benfica-POR, Vitoria de Setúbal-POR e Sparta Praga-CZE completam o rol de campeões do torneio. Reconhecer todas essas taças como mundiais, porém, implicaria no reconhecimento da Alemanha Oriental como primeira e única seleção campeã mundial interclubes. Um erro de conceito evidente. E divertidíssimo.

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Thiago Zanetin tem 31 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Serie A e na Europa.

Imagens: Divulgação.

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