FLORENTIA VIOLA | A história do rebrand forçado da Fiorentina

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2001-02. Uma temporada de pesadelo para a Fiorentina. Mesmo vindo da conquista de sua sexta Coppa Italia, que lhe valeu uma vaga à já antiga UEFA Cup, a viola despencou para a Serie B com uma campanha medíocre (22 pontos em 34 jogos). Pior do que isso: nem pôde disputá-la.

As finanças da Fiorentina estavam tão no vermelho — salários e impostos atrasados, etc. — que a inscrição na Segundona foi negada, sua marca foi sequestrada como garantia, e, ato contínuo, seu então proprietário, o agora ex-empreendedor de cinema Vittorio Cecchi Gori (que viria a ser indiciado criminalmente por bancarrota fraudulenta) perdeu o título esportivo do clube. O equivalente a uma falência. Às 19 horas do dia de 31 de julho de 2002, a viola deixou de existir.

Mas, como você sabe, Florença é o berço do Renascimento. E, no melhor estilo da “Divina Comédia” de Dante Alighieri, a Fiorentina começou sua ascenção do inferno já no dia seguinte, 1º de agosto. Pelos caminho tortuosos do purgatório. E das polêmicas.

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Entra em cena Diego Della Valle, empreendedor do ramo de calçados, que, aceitando uma oferta da Federação Italiana, adquire o título esportivo viola a custo-zero. Começava ali a história da Florentia Viola — um “clube-tampão”, fundado para resgatar e dar continuidade à história da velha Fiorentina.

Começava também a primeira polêmica: em qual divisão vai jogar a Florentia Viola? Deveria ser, no máximo, na Serie D — a elite nacional de amadores. Mas o clube conseguiu se inscrever no último degrau do profissionalismo, a antiga Serie C2 (Quarta Divisão). Como? Com uma manobra: aproveitando-se do rebaixamento da Cavese por uma suposta fraude esportiva, a Florentia entrou com um pedido de repescagem e, por méritos esportivos, assumiu seu lugar. Esse critério — o de méritos esportivos — existe, mas tecnicamente não era aplicável; afinal, a história era da Fiorentina, que, àquela altura, não existia mais. E, para piorar, a Cavese seria absolvida dessa acusação de fraude anos depois.

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Devidamente alocada no Grupo B da C2, a Florentia Viola se pôs como objetivo o título, que valia uma vaga direta à C1. Os tempos tinham mesmo mudado: na falta de um Batistuta, o artilheiro seria Christian Riganò, que vinha de 41 gols em dois anos pelo Taranto; em vez de nomes consagrados, jovens de boa esperança, como Diamanti e Quagliarela (sim, esses mesmos) chegavam para dar corpo a um time de baixo custo, quase 100% italiano; e a torcida, que num passado recente viajara para o Camp Nou, agora iria a Gubbio, Poggibonsi e outros lugares de nome difícil com os quais nem sonhavam.

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Da última camisa viola original, então, não sobrou praticamente nada: em vez do máster da Toyota, a local La Fonderia; e em lugar do template personalizado da Mizuno, um padrão da PUMA. Como menção do pasado, apenas o brasão heráldico de Florença, lembrando que a Florentia Viola era um time da cidade, mas não (ainda) a Fiorentina.

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Outro sinal de que os tempos eram outros foi o primeiro jogo oficial da Florentia Viola: um dérbi regional, contra o Pisa — que, em épocas melhores, se salvou de um rebaixamento à Serie B justamente no Artemio Franchi, em Florença —, pela Coppa Italia Serie C: no campo, derrota por 1×0; e nas arquibancadas, uma faixa em cruz com a mensagem Riposa in pace.

Mais difícil do que essa estreia, só mesmo a concorrência do Rimini na C2. A Florentia tropeçava demais, e, sobretudo, em casa — onde jogou para menos de 20 mil pessoas apenas uma vez. Foi um drama, com direito a derrota nos confrontos diretos, troca de treinador (saiu Vierchwood — aquele mesmo — e entrou Cavasin, ex-jogador da ex-Fiorentina), mercado de reparos na janela de janeiro de 2003 e críticas quase diárias nos primeiros sites independentes que os torcedores faziam surgir.

Tudo, porém, acabou bem. A Florentia Viola confirmou o título da C2 em frente a mais de 35 mil pessoas, no Artemio Franchi, contra o Savona. Missão cumprida, com festa para todos — em especial para o “neo-Batistuita” Riganò, que marcaria 30 gols em 32 jogos. Hora, então, de cumprir o programa.

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Logo após o título da C2, Diego Della Valle readquiriu a marca Fiorentina. E, junto com ela, a sua história e méritos esportivos. Morria a Florentia Viola e, enfim, voltava a velha viola. Que deveria voltar a campo na C1, mas acabou repescada de novo, dessa vez à Serie B, onde substituiu o falido Cosenza — a única das equipes rebaixadas que não se salvou após o imbróglio da Federação com o Catania —, e mais uma vez por méritos esportivos, deixando para trás Pisa e Martina Franca, que, como perdedores dos últimos play-offs de acesso da Terceirona, teriam a preferência. Ou seja, outra polêmica manobra.

Seria uma Serie B sui generis: 24 times, cinco promoções diretas e um mata-mata, até então inédito, entre o sexto colocado e o 15º da Serie A. Como você já adivinhou, a Fiorentina terminou em sexto e voltou à Serie A — derrotando o Perugia, que, embora estivesse uma divisão acima, teve a desvantagem de decidir em Florença. Mas essa já é outra história (e outra polêmica).

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Thiago Zanetin tem 31 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Europa.

Imagens: Divulgação.

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