Como a realidade política da Espanha “travou” a camisa da #Copa2018

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Critérios estéticos à parte, você vê alguma coisa muito errada na camisa que a adidas (re)criou para a Espanha buscar o bi na Copa do Mundo FIFA 2018? Muitos espanhóis vêem. E justamente no detalhe que mais tínhamos elogiado: a junção das intervenções no ombro — o que diferencia a peça da de 1994, na qual foi inspirada.

¿Que pasa? O seguinte: como as intervenções são entrecortadas por finas linhas vermelhas, tem-se a impressão (ou a ilusão) de que o azul-petróleo seria, na verdade, um tom de roxo; e, pela sequência das cores aparecem no ombro — o vermelho da camisa seguido pelos traços em amarelo e “azul-petróleo-roxo” —, muita gente está enxergando uma menção à bandeira da Segunda República Espanhola (que “suspendeu” a monarquia no país entre 1931 e 1939). Ou seja, um ataque à Coroa Real da Espanha — há semanas no centro do noticiário mundial pelo imbróglio e a repressão violenta ao processo de independência da Catalunha.

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Histeria sócio-política? Pois a questão foi parar nos grandes jornais da Espanha, muitos torcedores propuseram um boicote organizado, a Real Federación Española de Fútbol-RFEF teve que soltar uma nota e a apresentação oficial sofreu um primeiro cancelamento. A polêmica é tanto que já se cogitou até que a Espanha vá para a Copa vestindo o modelo anterior — o que seria uma tragédia comercial para a adidas, e para a relação entre a marca e a RFEF.

Um problemaço, que nos leva à quarta d’“As 22 Consagradas Leis do Marketing”, dos papas Al Ries e Jack Trout: a lei da percepção. Citando:

“(…) Tudo o que existe no mundo de marketing são percepções nas mentes do cliente ou cliente em perspectiva. A percepção é a realidade. Tudo o mais é ilusão. Toda verdade é relativa. Relativa à nossa mente ou à mente de outro ser humano. (…)”

Luigi Pirandello — autor italiano que não é de marketing, mas adoramos — resumiria tudo isso no título de um dos seus livros: “Assim é se lhe parece”. Não dá para lutar contra a percepção das pessoas. Se há quem veja a bandeira da Segunda República no ombro da camisa espanhola, é porque, para essas pessoas, a bandeira está lá e pronto; e o inverso é verdadeiro para quem não vê nada. A solução, então, é que a intervenção gráfica deveria ter sido feita de outra forma — talvez exatamente como no modelo de 1994 — ou, em último caso, não estar lá.

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“Pô, mas vocês não disseram que gostaram da camisa?” Sim. E repetimos: é linda e está entre as melhores que vimos até agora. Só que nós a vemos com olhos brasileiros, ou seja, de outra perspectiva histórica, cultural, política e até social. É fato que a Espanha já vestiu camisas moradas (referência ao “azul-petróleo-roxo”) antes; mas o contexto atual do país ressignificou a cor para muitas pessoas. Não condenamos a adidas pela criação ou a RFEF pela aprovação do manto — seria preciso uma boa consultoria em história espanhola para antecipar esse problema. Fica, porém, a reflexão: por melhores que sejam as intenções, a mente se sobrepõe aos olhos. Todo cuidado é pouco.

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Thiago Zanetin tem 32 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Europa.

Imagens: Divulgação.

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Category: CamisasMarketing