Blackpool FC: quando a torcida abandona por amor

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Existe vitória quando se joga para quase ninguém? Essa é a pergunta que a dirigência do Blackpool FC, e em especial o seu proprietário, Karl Oyston — apenas o último nome da família que, há anos, controla o clube —, deveria se fazer. Porque, ontem (28), ao mesmo tempo em que os tangerines superavam o Exeter City no playoff de acesso à Terceirona Sky Bet Football League 1, a maioria dos milhares e milhares de assentos reservados à sua torcida ficaram vazios. Os mesmos assentos dos quais, há apenas sete anos, cerca de 40 mil pessoas vibraram com a conquista da promoção à Premier League.

Modismo? Não: amor.

 

 

Boicotar a final dos play-offs da EFL 2 foi o ato final, extremo, da campanha “Not a Penny More-NAPM” (“Nem Mais Um Centavo”, em tradução livre), comandada pela associação popular Blackpool Supporters Trust-BST desde a temporada 2014-15, que viu o Blackpool FC despencar da EFL Championship (Segundona) de forma vexaminosa — praticamente sem elenco profissional durante a disputa; o dinheiro da passagem pela PL e das campanhas regulares na Segunda Divisão simplesmente evaporou (ou, leia-se: foi para outros empreendimentos da família proprietária). E o protesto que ganhou força logo após essa queda, quando a família Oyston recusou uma oferta de £ 16 milhões da Trust para assumir o clube.

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Desde então, a orientação é boicotar todo e qualquer produto — a Trust chegou a produzir uma “camisa oficial alternativa” — ou ação oficial do Balckpool FC. E isso chegou até o estádio Bloomfield Road: em 2015-16, na EFL 1, a média de público dos tangerines ficou abaixo de 10 mil espectadores pela primeira vez desde 2009-10 (ironicamente, a temporada do acesso à Premier League); e após a imediata queda para a EFL 2, mais da metade dos torcedores não compareceram. Acompanhe:

BLACKPOOL FC — PÚBLICO MÉDIO DE 2010-11 A 2016-17:

— 2010-11 (Premier League): 15.780;

— 2011-12 (EFL Championship): 12.764;

— 2012-13 (EFL Championship): 13.917;

— 2013-14 (EFL Championship): 14.217;

— 2014-15 (EFL Championship): 10.928;

— 2015-16 (EFL 1): 7.054;

— 2016-17 (EFL 2): 3.456.

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E mais até do que organizar a não ida ao estádio, a BST instituiu “Non League Weekends”, finais de semana em que a torcida do Blackpool FC boicota o próprio time para apoiar outro, o amador AFC Blackpool. Sim: para não torcerem contra, resolveram torcer para outro. Porque não há conserto: a essa altura, qualquer sucesso dos tangerines é visto pela torcida como um sucesso da família Oyston e, consequentemente, um mal para o clube. Mesmo uma subida de divisão. Wembley foi a consequência de tudo isso.

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E agora? Bem, o Blackpool FC está na Terceirona e, como em todo o acesso, isso deve aquecer os corações de torcedores menos mobilizados junto a BST (que, ressalte-se, tem enorme apoio): a média de Bloomfield Road deve aumentar, ainda que discretamente, e os polls provavelmente, vão faturar um pouquinho (mas só um pouquinho) a mais com merchandising e direitos de TV. Ninguém terá a certeza de que o dinheiro dessa promoção será reinvestido no clube — e a tendência é de que não seja, como vem acontecendo há alguns anos. E o cabo de guerra continuará: quem cede primeiro, a Trust aos Oyston ou os Oyston à Trust?

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É outro capítulo triste de um futebol que insiste em não ser popular. Ou, como bem definiu um editorial da Blackpool Gazzete após o triunfo do Balckpoll FC em Wembley: “vazio, sem alma e dividido”. Que esse não seja um fim e nem um destino para os tangerines. E que a Trust, todos os torcedores e a cidade de Blackpool continuem lutando pelo seu clube. Mesmo que o tenham longe dos olhos. Mesmo que estejam jogando contra seus próprios corações.

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Thiago Zanetin tem 31 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Europa.

 

Imagem: Divulgação.

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Category: Marketing