35 anos depois, revisitamos a visão de Drummond sobre a “Tragédia do Sarriá”

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5 de julho de 1982. Estádio Sarriá, a velha casa do Espanyol, em Barcelona. Data e local em que o sonho de milhões de brasileiros se tornou o dia com que muitos italianos sequer ousariam sonhariam. Há 35 anos, o camisa 20 azzurro Paolo Rossi marcou os três gols do 3×2 com o qual uma improvável Itália — que vinha fazendo uma campanha irregular, mas contava com o genial Enzo Bearzot no banco e tinha um elenco de primeiríssimo nível —, tirou da Copa do Mundo FIFA aquele que, para muitos, quase todos, foi o melhor Brasil desde 1970 — com Telê Santana no comando e Zico, Sócrates, Falcão, Júnior, Toninho Cerezo e outros tantos jogando por música (aquela mesmo, do “canarinho que voa”), e aparentemente “destinados” a ficar com a taça que não veio.

Essa pancada de 1982 doeu tanto no ânimo boleiro nacional que, até hoje, suscita as mais diversas teorias. Não há quem não a cite quando opõe o “futebol-arte” ao “futebol de resultados” — esquecendo-se que aquela mesma Itália, que contava com o genial Enzo Bearzot no banco e tinha um elenco de primeiríssimo nível, saiu campeã mundial propondo o jogo contra a Polônia, nas semifinais, e massacrando a Alemanha (ex-Ocidental) na decisão. Mas as melhores reações, como de praxe, aconteceram no calor do momento. Em especial, via imprensa esportiva.


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A primeira, a que está no imaginário de todos, é a capa do day after do saudoso Jornal da Tarde-JT, do grupo O Estado de São Paulo: uma criança, meio segurando o choro, meio chorando, na arquibancada do Sarriá. Era José Carlos Vilela, que, mais de 30 anos depois, encontraria Paolo Rossi numa ação da VISA para a Copa do Mundo FIFA 2014, no Brasil.

A “efervescência”, porém, esteve mais no Rio de Janeiro. Àquela altura, Nelson Rodrigues já não estava entre nós. Mas o Jornal do Brasil-JB tinha duas feras de igual quilate: João Saldanha e Carlos Drummond de Andrade. O primeiro, como você pôde ler essa semana no nosso Facebook, desceu o verbo na Seleção já no dia seguinte. Já o segundo, em sua sapiência mineira, esperou um pouco mais para, em 7 de julho de 1982, fazer uma “poesia em prosa” da derrota. Drummond localizou como ninguém, e como nunca naquele momento, o futebol em sua essência cultural, de fé popular. É isso que você vai ler mais abaixo. E fica a pergunta: de diante de uma eliminação traumática como essa ele soube escrever assim, como teria sido o texto do título?

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PERDER, GANHAR, VIVER

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…

E chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.

Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos?

Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado.

A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.

Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos (ou adquirimos, na maioria das cabeças) o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres-diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se.

Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano está na segunda metade?

Jornal do Brasil, 07/07/1982

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Thiago Zanetin tem 31 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Europa.

Imagens: Divulgação.

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