WE LOVE LEBOWSKI | Quando o futebol é uma utopia popular

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Estamos em 2004. Numa tarde qualquer, um grupo de adolescentes da periferia de Florença decide cabular aula. Todos torcem para equipes de ponta da Serie A TIM, mas nenhum deles se vê representados por um futebol afundado em escândalos de apostas, e que parece ter cada vez mais mídia e menos espaço para os torcedores — mais embalagem do que conteúdo. Estão decepcionados com o calcio.

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Naquela mesma tarde, porém, esses garotos tiveram aceso a um fanzine de futebol alternativo. Nele, leram uma nota sobre uma certa AC Lebowski (como a personagem de Jeff Bridges no filme-cult “The Big Lebowski”, de Joel Coen). Essa equipe — formada um ano antes pela fusão de dois time de society — não só ocupava a lanterna do amador campeonato de Terza Categoria Toscana (Terceirona regional, Nona Divisão geral) como tinha acabado de perder de vice-lanterna por 8-2. Foi irresistível: um pouco por protesto, um pouco por contravenção, um pouco por diversão — um pouco por tudo, enfim, aqueles garotos abraçaram a Lebowski com sua nova e definitiva squadra del cuore.

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Inusitado? Bem, no começo até os jogadores da Lebowski acharam que era uma piada. O fato, porém, é que o grupo de garotos tinha uma boa mentalidade: proclamaram-se ultrà (organizados); batizaram-se, sarcasticamente, como Ultimi Rimasti Lebowski (“Os Últimos Remanescentes da Lebowski”); nomearam seu espaço no estádio como Curva “Moana Pozzi” — homenagem a uma atriz pornô italiana; e, domingo sim, domingo também, estavam em todos os campos da Toscana, com seus cantos anárquicos, em dialeto ou palavras que não significavam nada.

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Em contraste com os resultados de campo — sempre na Terza Categoria, e quase sempre na lanterna —, a Lebowski foi ganhando adeptos. Até que, em 2010, os torcedores e os jogadores se uniram para assumir o clube integralmente. Nascia o Centro Storico Lebowski, um dos primeiros (se não tiver sido o primeiro) clube autogerido e autofinanciado do futebol italiano, em que todos os membros, do mais presente ao menos assíduo dos torcedores, do craque ao carregador de piano do time, têm o mesmo direito de voto e poder de veto. É aí que entra o documentário “We Love Lebowski”.

Filmado em 2011, o filme conta toda essa história sob a ótica do primeiro ano de administração popular do Centro Storico Lebowski. E, mesmo hoje, à distância de cinco anos, mostra o clube como ele ainda é: uma utopia em construção, onde o futebol é feito pelas e para as pessoas. Entre os sonhos citados no doc., a constituição de uma categoria de base e os sonhados acessos — o CSL está atualmente na Prima Categoria — já são realidade. O apoio de entidades locais tamém. Falta, ainda, um estádio próprio, que, desde já, comporte voos maiores — falamos sobre a Serie D, a elite nacional dos amadores, que vale o passe para o futebol profissional.

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A grande conquista do Centro Storico Lebowski, porém, é a sua influência. A história do clube é conhecida Europa afora e, na Itália, serve como referência para diversos projetos de torcidas que desejam ter participação acionária ou assumir a administração de seus clubes — nas séries amadoras e também profissionais, como mostram a Ancona 1905 e, mais recentemente o AC Prato, ambos da Terceirona, Lega Pro. Que aqueles garotos tenham começado uma revolução ao abraçara então AC Lebowski? Bem, pelo menos ajudaram a popularizá-la. Se dermos a devida importância ao torcedor, o futebol não tem limites. Vida longa ao Centro Storico Lebowski.

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Thiago Zanetin tem 31 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Serie A e na Europa.

Imagens: Divulgação.

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