Torcedor, ajude o seu clube a sair do armário

Torcida do Mainz 05 em coreografia anti-homofobia nos estádios. Você já parou para pensar o quanto o seu clube pode ganhar com isso?
Torcida do Mainz 05 em coreografia anti-homofobia nos estádios.
Você já parou para pensar o quanto o seu clube pode ganhar com isso?

Ontem (25), fizemos cinco postagens no nosso Twitter. E os nossos leitores não interagiram apenas com uma – essa, logo abaixo, em que retuitamos a mensagem de apoio que o Tottenham mandou à sua torcida LGBT presente na London Pride 2016. Para nós, esse desinteresse (vamos chamá-lo assim) é reflexo de uma miopia que esta penalizando as receitas e a mentalidade dos nossos clubes. Por isso, convidamos você a tirar seus conceitos e preconceitos do armário e refletir com a gente. Topa?


Há exatamente um ano, aproveitamos a reação positiva dos clubes da Major League Soccer-MLS à legalização da união homoafetiva nos Estados Unidos para expor o quanto o futebol brasileiro tem perdido por não contemplar o público LGBT. E não estamos falando apenas de prejuízos sociais – já que esse são evidentes. O assunto aqui começa pelo dinheiro que não está entrando no caixa.

Em 2010, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística-IBGE estimou a nossa população LGBT em 20 milhões de pessoas, sendo que quase 50% estão nas classes A e B, e têm, portanto, renda média mensal superior a R$ 3 mil. Já em 2015, a associação internacional de empresas Out Leadership apontou que o potencial de consumo desse público gira em torno de R$ 418,9 bilhões, o equivalente a 10% do nosso PIB. Mundialmente, o chamado pink money concentra US$ 3 trilhões.

Representatividade: na Inglaterra, coletivos de torcedores gays e LGBT são comuns.
Representatividade: na Inglaterra, coletivos de torcedores gays e LGBT são comuns.

Seu clube, que provavelmente está com as finanças em desordem e tem grande parte das receitas atreladas às cotas de TV (as exceções são raríssimas, e só confirmam a regra), não deveria ficar alheio a números como esses, certo? Certo. Então, o que falta para que o seu clube assuma e inclua de vez o público LGBT em suas ações? Talvez o seu apoio – isso, o seu.

Quebra de paradigmas: em 1977, o Grêmio contou com a primeira organizada gay do Brasil, a Coligay. Recentemente, a torcida teve sua história contada no livro “Coligay — Tricolor e de Todas as Cores", escrito jornalista Léo Gerchman.
Quebra de paradigmas: em 1977, o Grêmio contou com a primeira organizada gay do Brasil, a Coligay,
cuja história foi contada no livro “Coligay — Tricolor e de Todas as Cores”, do jornalista Léo Gerchman.

Sejam honesto: o que você pensaria se, num belo domingo de campeonato, um grupo chegasse ao seu estádio para demarcar uma área de torcedores LGBT? Ou se, de passagem pela loja oficial do seu clube, você visse um item qualquer – digamos um bottom – estilizado com as cores das bandeiras dos movimentos gay os trans? Ficou com raiva só de pensar? Claro que ficou. Você está em meio a uma cultura que atesta o futebol como “coisa de homem” e vê chistes de gênero – “bicha”, “veado”, “travecão”, etc. – como mera brincadeira.

É essa cultura, aprendida e praticada jogo a jogo, que gera em você a resistência a torcidas e torcedores LGBT. E se você é resistente, seu clube também será. Afinal, é você que banca tudo: é o seu ingresso, a sua presença na arquibancada, que gera o interesse de uma empresa pelo naming right do estádio; é por você comprar camisas e outros produtos que existem bons acordos de patrocínio, fornecimento e licenciamento; é pela sua torcida que existem planos de sócios-torcedores; e os exemplos continuam. Seu clube tem medo de contrariar você, teme ir contra a sua resistência, sob pena de perder o seu consumo.

Popular na essência, Seattle Souders é um dos clubes da MLS que mais apoia a sua comunidade LGBT.
Popular na essência, Seattle Souders é um dos clubes da MLS que mais apoia a sua comunidade LGBT.

Agora, pensemos juntos: se é (e é) o torcedor que banca o clube, quanto mais torcedores, mais possibilidades esse clube terá. E não é apenas consumo; é mentalidade. É mais gente falando sobre o clube, e somando novas percepções e valores à sua marca. É o clube sendo visto de uma maneira diferente, talvez até conquistando admiradores e influência entre os rivais. É crescimento para todos. Esse é o ponto. A população LGBT, que hoje não é contemplada nas ações de marketing dos clubes; que não conta com linhas de produtos boleiros específicos; que não tem um espaço de representação nas arquibancadas; que, enfim, não está se reconhecendo como parte do jogo, também torce. E quer ajudar.

Como você poderá comprovar no documentário “Jogo Truncado” (acima), torcidas e movimentos de torcedores pró-LGBT já existem, mas ainda estão fora dos estádios. Eles precisam de você para chegar até lá. E o seu clube precisa deles para chegar mais longe, em receitas, negócios e mentalidade. “Mas vai ter muito preconceito”. Naturalmente. Ora, e o próprio futebol já não foi marginalizado antes de ser aceito e se tornar paixão? Então, da próxima vez que perguntarmos se um dia veremos os nossos clubes com posturas inclusivas e de tolerância, esperamos ler respostas positivas e, quem sabe, perceber que você também está ajudando. Não precisa “levantar a bandeira” de nada – apenas permitir que mais gente carregue a bandeira do seu clube. Menos armário e mais arquibancada.

Thiago Zanetin tem 30 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Serie A e na Europa.

Imagens: Divulgação

Category: MarketingMercado