RB Leipzig já tem força popular para o 50+1 da Bundesliga. Só falta a Red Bull querer

Muralha local: contra o RB Leipzig, a torcida do Borussia Dortmund ocupou seu lugar na Red Bull Arena com maioria absoluta de torcedores locais, da Saxônia.

Em um recente artigo para o blog da editora Grande Área (confira), Gerd Wenzel — comentarista da ESPN Brasil e sumidade em futebol alemão — levantou a seguinte pergunta sobre o RB Leipzig: afinal, o clube é “odiado, invejado ou o quê?”.

Bem, a organização e performance do RB Leipzig são mesmo invejáveis. Constituído em 2009, a partir da aquisição do ex-SSV Markranstädt pela Red Bull — é daí que vem o “RB”, habilmente ressignificado como RasenBallsport –, o clube é parte (talvez já seja até protagonista) de um projeto global, que conta, por ora, com RB’s na Áustria, Estados Unidos, Gana e Brasil, e conseguiu, em apenas oito temporadas, subir da amadora Quinta Divisão para 1. Bundesliga, onde atualmente divide a liderança com o Bayern.

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Dessa forma, os resultados que vêm da organização e performance do RB Leipzig não estão em discussão — nem por nós e, acreditamos, nem pelos torcedores dos demais clubes da Alemanha. Discute-se, porém — e aí, sim, por todos — o que embasa essa organização e performance: um drible técnico à Regra 50+1, que permitiu à Bundesliga, e ao futebol profissional alemão como um todo, crescer sustentavelmente e com protagonismo popularizar; e, a partir desse drible, o quanto, e como, esse ethos do modelo Red Bull pode influenciar na cultura do futebol, da qual a 50+1 se alimenta.

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Vamos entender. A Regra 50+1 foi instituída em 1998, permitindo que os clubes fossem convertidos em companhias de natureza pública ou privada, desde que mantivessem seu direito de voto majoritário (mínimo de 51%, ou seja, 50+1). Existem várias formas de se cumprir essa regra: clubes como Werder Bremen e Colônia, por exemplo, mantêm 100% dos votos e do capital; outros, como o Borussia Dortmund, operam em capital aberto vinculado a uma holding gerida pelo clube, que tem sempre maior peso nas decisões, por meio de cotistas e associações populares. Existem, também, exceções: clubes-empresa, como Leverkusen (Bayer) e Wolfsburg (Volkswagen), ou cotistas individuiais com histórico de investimentos no futebol de suas regiões por pelo menos 20 anos (caso que também se aplica a Dietmar Hopp, dono da SAP e do Hoffenheim) são permitidos. E, por fim, existe o driblador RB Leipzig.

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Eis o drible do RB Leipzig na Regra 50+1: o clube possui 51% dos votos, mas os votantes são todos funcionários da Red Bull. A companhia, então, controla tudo. Teoricamente, o clube está aberto a novos sócios, mas a taxa de entrada é altíssima — quase proibitiva, segundo a imprensa alemã — e a empresa ainda se reserva ao direito de recusar qualquer nova associação ou investimento sem razões específicas. Não há participação popular efetiva e, pelo que se entende, nem haverá. O que é um desrespeito ao modelo da Bundesliga e, principalmente, ao próprio público de Leipzig.

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Porque, sim, o RB Leipzig tem força popular. Segundo uma pesquisa recente do diário alemão BILD, o clube concentra 15% dos torcedores da região de Turíngia/Saxônia, atrás apenas de Bayer e Borussia Dortmund, ambos com 22%. E, nas arquibancadas, seu público só aumenta. À parte a temporada inaugural (2009-10, na Oberliga Süd — Quinta Divisão), em que jogou num estádio para apenas 5 mil pessoas, a média de espectadores do clube na Red Bull Arena saltou de 4.206 para os atuais 41.191, com quase 100% de ocupação.

RB LEIPZIG — EVOLUÇÃO DAS MÉDIAS DE PÚBLICO
– 2009-10 | NOFV-Oberliga Süd — 2.150
– 2010-11 | Regionalliga — 4.206
– 2011-12 | Regionalliga — 7.401
– 2012-13 | Regionalliga — 7.563
– 2013-14 | 3. Liga — 16.734
– 2014-15 | 2. Bundesliga — 25.025
– 2015-16 | 2. Bundesliga — 29.441
– 2016-17 | 1. Bundesliga (em andamento) — 41.191

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Nesse cenário, inserir o RB Leipzig na Regra 50+1, abrindo-o à participação popular, seria a melhor ação de marketing possível para a Red Bull. De uma só vez, movimentos como Neim Zu RB (“Não ao RB”) perderiam a força, o clube ganharia simpatia — ou reduziria a antipatia — junto à comunidade boleira alemã e, sobretudo, seu público seria valorizado. O torcedor precisa ter a certeza de que, mesmo surgido e gerido como um negócio, o seu clube é mais do que um negócio. É história. Identidade. Pertencimento. É o seu representante. E se o clube representa o sentimento dos torcedores além gramados, é justo que os torcedores possam representar seus clubes além da compra de ingressos e produtos.

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Leipzig já abraçou o RB. Agora, a Red Bull só não abre o RB para Leipzig se não quiser. E se não quer, então respondemos o seguinte a Gerd Wenzel: o clube não é nem invejado, nem odiado. É “o quê” — um empreendimento, parte de um projeto que, assim como começou, pode terminar. O torcedor merece mais.

Thiago Zanetin tem 31 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Serie A e na Europa.

Imagens: Divulgação.

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