Na Liga Espanhola, arquibancada cheia é só cenário para a TV

getafe

Dos 20 clubes que integram a Série A do nosso Brasileirão Chevrolet, 19 ocupam menos de 75% dos seus estádios (a exceção é o Palmeiras, que, mesmo assim, está no limite), e apenas cinco (além do alviverde, Corinthians, Flamengo, Atlético Mineiro e Santos) lotam pelo menos 50% das arquibancadas. Já na Série B, nenhum time chega perto desses índices – o melhor é o Ceará, com 21%. O cenário é preocupante. Mas poderia ser pior. Poderíamos estar na Espanha.

Nesta semana, a LaLiga anunciou que vai multar os clubes da LaLiga Santander (Primeira Divisão) e LaLiga 123 (Segundona)sim, a liga voltou atrás em sua decisão de trabalhar com title sponsorsque não ocuparem três-quartos de seus estádios nos setores visíveis durante as transmissões de TV. E se a lotação dessas áreas for menor do que 50%, a penalização será dobrada. Os únicos atenuantes serão as partidas em más condições climáticas.

Assentos vazios enfeiam as transmissões. O torcedor é só decorativo?
Assentos vazios enfeiam as transmissões. O torcedor é só decorativo?

“Mas por que só o setor mostrado na TV?”, você se pergunta. Simples: nesta temporada, começa a valer o acordo de broadcasting que, até o final de 2018-19, abarrotará os cofres da LaLiga com € 2,65 bilhões (pouco mais de R$ 9,4 bilhões, sendo € 1,00 = R$ 3,55) e a imagem é a síntese do produto. Em outras palavras: na liga espanhola, o torcedor é visto como adorno, mero item de cena – um figurante.

De 2014-15 para 2015-16, ocupação geral da LaLiga saltou de 69,81% para 70,92%. Como exigir que os clubes entreguem bem mais do que isso em apenas uma temporada?
De 2014-15 para 2015-16, ocupação geral da LaLiga
saltou de 69,81% para 70,92%. Exigir 75% nesta temporada é irreal.

Falando apenas da elite, a norma é tão severa que, se valesse já na última temporada, penalizaria 13 dos 20 participantes da então Liga BBVA (Rayo Vallecano – 74,11%; Real Sociedad – 71,30%; Deportivo La Coruña – 71,29%; Villarreal – 70,77%; Valencia – 70,17%; Málaga – 66,29%; Real Betis – 62,91%; Granada – 61,90%; Celta de Vigo – 60,30%; Las Palmas – 59,43%; Levante – 51,46%; Espanyol – 45,80%; e Getafe – 31,51%). E tão incoerente que exige dos clubes uma média de ocupação muito maior do que a do próprio campeonato, atualmente em 70,9% (seu recorde histórico).

Vazio, vazio: dos sobreviventes da última temporada, Espanyol é o que mesmo enche as arquibancadas.
Vazio, vazio: dos sobreviventes da última temporada,
Espanyol é o que menos lota suas arquibancadas.

Ao invés de multar estádios vazios, a LaLiga deveria criar dispositivos que ajudem os clubes a enchê-los, como, por exemplo: o estabelecimento de um preço popular máximo para visitantes (medida que será testada pela Premier League); ou a determinação de um subsídio mínimo aos torcedores a partir das novas, e maiores, cotas de TV; ou, ainda, um incentivo aos clubes que melhorarem suas médias de público – independentemente da porcentagem de ocupação – em relação à temporada anterior. E então as TVs terão naturalmente o que mostrar. Forçar a lotação das arquibancadas, com um público excedente que ainda não existe, ou não foi trabalhado adequadamente, para maquiar transmissões esportivas é antimarketing. Bola fora do futebol espanhol.

Thiago Zanetin tem 30 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Serie A e na Europa.

Imagens: Divulgação.

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