MOOCAIRES | Onde a cultura e o futebol argentino jogam juntos

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“Brasil, decime: qué se siente?”, perguntavam, cantando loucamente, os milhares e milhares de argentinos que invadiram nossas ruas, bares e estádios durante a Copa do Mundo FIFA 2014. Bem, ainda que com certo atraso, Futebol Marketing descobriu a resposta. No último sábado (18), aproveitamos a partida entre Argentina e Venezuela, pela Copa América Centenário, e fomos ao restobar Moocaires (uma mistura de Mooca, bairro da Zona Leste de São Paulo, com Buenos Aires) para conferir de perto o modo hermano de torcer. E que surpresas: o futebol é apenas um dos ingredientes culturais da casa; e a torcida não é propriamente era argentina, mas repleta de brasileiros que alentam Messi e companhia. ¿Vamos a ver lo qué se siente?

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Rua da Mooca, 3593. Estamos no coração da Mooca – ou República Popular da Mooca, para seus habitantes mais extremados -, tradicional bairro-reduto da colônia italiana em São Paulo. Mas, assim que avistamos o Moocaires, a impressão é de que tínhamos chegado a Caminito. Mesmo em meio à primeira escuridão do fim de tarde (estamos às 18h40, um pouco mais, um pouco menos), identificamos a fachada colorida. Na calçada, mesas e luminárias antigas nos esperavam, tal e qual uma via de Buenos Aires. Mafalda, a personagem de Quino, está sentada num banco de praça. Olhando para dentro, tivemos nosso primeiro contato boleiro: dois brasões grenás do Juventus – o “Moleque Travesso”, orgulho do bairro – aplicados sobre bandeiras argentinas nas geladeiras. Então, olhamos para o lado e percebemos que uma das mesinhas era dedicada a Maradona, bem no meio de outras duas, com desenhos sobre tango. Tudo entendido: aqui, não se trata só da cultura do futebol, mas de um futebol que reforça uma identidade cultural.

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Entramos no Moocaires procurando por Rita, que, três dias antes, tinha respondido ao nosso “autoconvite”, via Facebook. A primeira pessoa que conhecemos, porém, foi a garçonete argentina Julieta. “Boa noite. Quieres que te arrume una mesa?, ela pergunta, prestativa, com o sotaque de quem veio há pouco de Buenos Aires para o Brasil. Foi Julieta que nos apresentou Rita, que organizava tudo para o expediente de logo mais. As duas nos colocaram em uma mesa bem na “esquina oeste” de Caminito – na verdade, um ambiente com grafite de Caminito bem de frente para uma grande TV. Temos esse ambiente aqui de baixo, com a cozinha, e também o andar de cima.” Rita nos explica. E podemos fotografar? “À vontade”.

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Difícil mesmo foi saber por onde começar. As paredes são lotadas de quadros de jogadores, de ícones culturais e até personalidades políticas. Francescoli, em seus grandes dias de River, contrasta com o Boquense Riquelme e Carlitos Gardel. Nas duas pontas, duas imagens de Che Guevara. No meio de tudo, uma camisa da albiceleste. Mais acima, uma bandeira dividida entre Brasil e Argentina e, logo abaixo dela, brasões de grandes clubes argentinos. Do outro lado, camisas emolduradas – com a peculiaridade de que mantos arquirrivais nunca aprecem lado a lado. Encantamo-nos com tantas camisas. “Conhece aquela?”, pergunta Rita, apontando para a peita do Chacarita Juniors. “É um clube muito famoso entre a torcida do Juventus”, complementa. Quando nos encantamos com uma camisa antiga do Independiente, Julieta logo precisa: “Soy de Racing”. Há ainda espaço para uma bandeira da Mooca e mais coisas do Boca – estaríamos num ambiente azul-e-ouro?

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O Moocaires ainda está deserto. Rita e Julieta conversam, acertando detalhes para o expediente. Ainda falta muito para o jogo. Resolvemos conhecer o andar de cima. Logo no corredor da escada, vemos, entre outros, um quadro do roqueiro argentino Charly Garcia, devidamente fardado de albiceleste. Quase uma prévia da música ambiente: Soda Stereo, Los Pericos, Fito Paez e companhia – era como se estivéssemos dentro de uma edição do antigo programa “Hermanos”, da MTV Brasil.

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Na parte de cima, o que predomina é a Argentina – país e seleção. Há mais camisas de clubes, claro; mas há também a letra do tango “Por Una Cabeza” no espelho, posteres de locais turísticos da Argentina e Maradona – muito Maradona. Don Diego aparece no bar e é a primeira imagem que vemos ao descer, seja com a camisa de 1986, seja levantando a Copa do Mundo FIFA. Numa das paredes, outro ídolo argentino divide os holofotes com ele: Juan Manuel Fangio, pentacampeão mundial de Fórmula 1.

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Já estamos achando o Moocaires um mundo à parte, e ainda nem vimos a bola rolar o time de Messi. De volta à nossa mesa, resolvemos entrar no clima de vez e pedimos empadanas de verdura, com escarola e ricota (peça também; você será feliz). E, enquanto a comida não chegava, quem chegou foi Cristian, o argentino dono do restobar. Fomos apresentados por Rita, e a primeiríssima coisa que ele fez, antes mesmo de conferir como estava a casa, foi se sentar e conversar conosco. Muito atencioso. Depois, pudemos ver que ele tem o mesmo cuidado com cada frequentador. Hospitalidade porteña? Quase. “Soy de Resistencia, capital de Chaco”, ele se apresenta. Bem, torcedor do Chaco For Ever, então? “Não, não necessariamente. Quer dizer, quando Chaco representou a região no Nacional todos seguimos com interesse. Mas a verdade é que, quando era pequeno, joguei bola por um clube da cidade e fiquei torcendo um pouco por ele”.

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Ainda teríamos tempo para falar sobre futebol. Por ora, estamos conhecendo melhor Cristian, que tem até uma curta biografia escrita nos cardápidos do Moocaires. Muito tempo de Brasil? “Estou aqui há 16 anos. O Moocaires fez nove este ano”, ele nos conta. “Antes de voltar a trabalha com alimentação, trabalhei em bancos e áreas comerciais”. Voltar? “Antes do Moocaires, aqui era um café. E lá na minha cidade, quando tinha 17 ou 18 anos, tive um carrinho – que talvez hoje até pudesse ser chamado de ‘food truck’, mas era mesmo só um carinho – que usava para vender uns hambúrgeres que fazia. Mas isso era bem coisa de garoto, porque tinha acabado os estudos e, como não tinha muito dinheiro para entrar numa faculdade, arranjei um jeito de não ficar parado e ganhar alguns trocados”. O “hobby” se revelou um talento: o cardápio do Moocaires é assinado por ele. E, aproveitando que estamos em Resistencia, não nos parece ter visto muito sobre a cidade no bar. Por quê? “Não tem muita coisa para ver em Resistencia”, ele começa. “E tem outra coisa: por mais que os brasileiros digam que viajam para a Argentina, na verdade vão conhecer Buenos Aires e só mais uma ou outra cidade. Como não dá para colocar a Argentina inteira num bar, tentei trazer o que as pessoas conhecem. A gente fala mesmo com as pessoas através da gastronomia”, completa. De fato, estamos em um ambiente cultural.

E como o futebol é um elemento marcante da cultura argentina, voltamos ao tema. Afinal, o Moocaires deve fazer muitos eventos boleiros, certo? “Na verdade, não. Não são ‘eventos’. É que passamos os jogos. Então, se mostramos um jogo da Argentina ou, por exemplo, do Boca, o ambiente favorece para que as pessoas se reúnam, encontrem outras com quem podem ter afinidade.” Vem-nos, então, uma curiosidade: como Cristian enxerga o jeito argentino da torcida do Juventus? “Acho legal. Eu moro quase do lado da Javari, lá me sinto como em casa. E é muito bom ver como a gente do Juventus pôde ser influenciada por algo mais próximo de nós, assim como é com o Grêmio de Porto Alegre, por exemplo. Não dá para dizer que são ‘barras’ como as argentinas, mas que parecem, parecem.” Se ele adotou o Juventus como seu time no Brasil? “Não. Soy de Boca. Se me perguntam qual o meu time no Brasil, digo que é o Corinthians. Mas é só por ‘sarro’, só porque gosto de brincar com as pessoas depois das partidas e das rodadas. Não é que eu paro de fazer tudo para ver o Corinthians como pare para assistir ao Boca ou à Argentina.” Nada de coração dividido, então, na final da Libertadores de 2012? “Claro que não. 100% Boca”. Corações divididos, aliás, não têm grande admiração de Cristian. “Eu fico triste. Bem, o capitalismo conseguiu interferir em algo que era mais sentimental. Acho que, por ter muito dinheiro envolvido, a influência cresce para que as pessoas torçam por um time local e outro fora. Assim, corre-se o risco de não ser torcedor de nada.”

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Cristian, então, nos deixa. Afinal, os clientes estão chegando. Os agasalhos e camisas albicelestes se multiplicam. Até olhamos em volta para “caçar” algum argentino na assistência; em vão: são todos brasileiros. Um deles, talvez o mais fanático da noite, estava sentado bem à nossa frente, vestindo uma jaqueta do Corinthians sobre a camisa de Batistuta. Seu nome é Márcio, e está acompanhado pela sua noiva, Juliana. Mas eles não entrariam na nossa história antes de conhecermos o são-paulino Jorge, que chegou para dividir a mesa conosco bem no apito inicial de Argentina x Venezuela. Como ele estava nervoso, propomos uma conversa só durante o intervalo. Higuaín, porém, abriu o placar aos cinco minutos e adiantou nossos planos. Mais tranquilos, mas entusiasmado pela assistência de Messi ao centroavante do Napoli, Jorge e Márcio começaram a conversar. Fomos no embalo.

Da esq. para a dir.: Jorge, Márcio e Juliana.
Da esq. para a dir.: Jorge, Márcio e Juliana.

“Argentinos” há quanto tempo? “Eu comecei a torcer agora, com o Messi”, comenta Jorge. “Já eu sempre torci para a Argentina. Nunca liguei para o Brasil”, diz Marcio. Sim, mas “sempre” desde quando? “Eu sou de 1979. Então, eu vi um pouquinho do Maradona, vai Battistuta, Caniggia, Redondo, Ortega, que era um puta de um camisa 10, mais recentemente Riquelme e agora Messi. Só vi fera. E a vontade que eles sempre tiveram de vestir a camisa da Argentina sempre fez diferença para mim. Eles honram. Eu acho que os brasileiros mais vestem de que honram. Não estou dizendo que o Brasil não teve bons times – Romário, Ronaldo, Bebeto, Rivaldo, todos aqueles caras eram ótimos. Mas não me despertaram nada”, Márcio diz. E Jorge complementa: “A Argentina tem raça. Tem uma entrega maior”. Raça, entrega e honra. Isso explica a paixão, então? “Não”, começa Márcio. “Não tem um motivo. É a mesma coisa de você me perguntar por que eu sou corinthiano. Eu sou porque sou, entendeu?”. Entendemos, claro. Agora, as passagens de Tévez, Macherano e Sebá pelo timão ajudaram, não? “Claro, marcou. O Tévez é muito ídolo. E ele criou, pelo menos para nós, uma ligação com o Boca. Acho que ele aproximou dois clubes de origens bem semelhantes, embora a gente não seja aliado de torcida, nem nada”, diz Márcio. E continua: “Eu não entendo como o Tévez não está nessa seleção de hoje. O cara está segurando o Boca quase sozinho, sem receber e joga muito”. “O Calleri é outro que ama o Boca”, comenta Jorge. “Acho que os caras acabam levando esse sentimento pelos clubes para a seleção”, completa.

Nesse ínterim, Higuaín aproveitou um vacilo da zaga venezuelana para ampliar. Com a Argentina engolindo o adversário, o jogo virou um protocolo e pudemos continuar o papo. E veio uma pergunta inevitável: como foi ser “argentino” durante a Copa no Brasil? “Só não foi melhor porque a gente ficou sem o título, diz Márcio. “Mas, meu, e a torcida dos caras? Só aqui em São Paulo tinham mais de 70 mil argentinos. E todos jogo eles tiravam aquele barato de ‘Brasil, decime qué se siente’. Muito louco”. Então, Jorge traz o Moocaires para a conversa: “E os jogos aqui? Vocês vinham assistir?, pergunta. “Porra, acho que eu estive em todos”. E Juliana continua: “Meu, quem não veio aqui, perdeu. Estava lotado. A parte de baixo, o andar de cima. O pessoal gritando, pulando. Parecia que a gente estava num estádio de lá”, ela diz. Márcio prossegue: “E as tretas? Lembra do tiro lá fora, na final? Opa, tiro? “É, foi um cara do DOI que disparou para cima. Porque o negócio era o seguinte: o Brasil tomou de sete e a Argentina passou para a final. Daí, no dia do jogo contra a Alemanha, tinha um monte de torcedor brasileiro do outro lado da rua, xingando, falando um monte para nós. Aí, já sabe, né? Se precisasse, a gente ia arrumar confusão fácil”, conta Márcio. “Mas não teve nada. Só um tumulto. Mas, porra, por que é que os caras têm que vir encher o saco? Já não tinham tomado sete da Alemanha e mais três da Holanda? Sai fora”.

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E para Márcio, esse episódio não teve nada a ver com rivalidade: “Porra nenhuma. Isso é gente que não tem o que fazer. Brasileiro não tem rivalidade com argentino. Tem frescura. Cara, eu fui visitar a Bombonera em 2013, um ano depois do Corinthians ter ganho a Libertadores contra o Boca, e fui com a camisa do Corinthians. Me trataram bem para caramba. Na época da final, mesmo, eu e mais uns camaradas fizemos amizade com um cara da ‘La 12’, que veio lá na loja do Timão no Parque São Jorge, onde eu trabalho. E o cara veio fardado de Boca, entendeu? Todo mundo olhou torto, mas eu fiz questão de que o cara fosse bem tratado. A gente tem que parar com essa bobagem de ‘argentino é isso’, ‘argentino é aquilo’”. Jorge comenta: “Acho que aqueles caras que estavam xingando a gente estavam mais aliviados do que qualquer outra coisa. Já pensou se a gente leva a Copa aqui, no Maracanã? Eles deviam canonizar o Götze”.

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O jogo seguiria tranquilo. E, talvez por isso, não tivemos cantos – nem um “Olê, olê, olê, olá” – das mesas. O alento ficou nas palmas e poucos gritos de incentivo. A Argentina faria 4×1 na Venezuela e todos nos dividiríamos em odes a Lionel Messi, que, a despeito do adversário muito inferior, jogou o fino da bola (mais uma vez). “Enquanto esse cara jogar e não se machucar, vai ser sempre o melhor do mundo. Ele só precisa ganhar uma Copa e pronto. Aí, cala a boca até do Maradona”, comentou Márcio. O próximo jogo, a semifinal da Copa América Centenário, será contra os Estados Unidos, donos da casa. Márcio e Jorge, porém, já previam uma final contra o México – sem saberem que, logo mais, La Tri perderia por 7×0 contra o Chile. Deixamos o Moocaires com a expectativa de retornar para uma possível decisão – quem sabe? – e com a certeza de que a cultura do futebol se alimenta e é legitimada pela cultura popular. O grafite de Caminito, as mesas de tango, Mafalda, Soda Stereo, a bandeira da Mooca, tudo que vimos lá, deu um clima único à partida. Recomendamos o Moocaires. E recomendamos, também, que você vá de peito aberto. Viver uma tarde-noite de Argentina, mesmo não sendo ou não torcendo pela Argentina, pode ser maravilhoso.

Thiago Zanetin tem 30 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Serie A e na Europa.

Imagens: Divulgação

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