Em carta aberta, Totti se declara ao futebol, à cidade de Roma e à sua Roma

2016-17 é uma temporada ingrata para os torcedores da Roma. Porque, 25 anos depois, essa será a última temporada de Francesco Totti. E a cada jogo a mais, falta menos para que as arquibancadas percam o seu capitano. Bem, Totti também é romanista – assim como aquela gente que vai à Curva Sud do Stadio Olimpico – e sente-se da mesma forma. É isso que ele demonstra na carta aberta For Rome, escrita de punho à rede social The Players Tribune, e que nós traduzimos aqui. Uma ode à única camisa que defendeu, à única cidade onde viveu e ao único esporte que praticou. Uma prova de que a parte mais bonita do profissionalismo é ser um amador (amante) das cores que se traz no coração. Leia e emocione-se.

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Há 27 anos, bateram à porta do nosso apartamento, em Roma. Minha mãe, Fiorella, respondeu. Quem estava do outro lado definiria a minha carreira. Quando ela abriu a porta, um grupo de pessoas se apresentou como dirigentes de futebol. Mas eles não vinham de Roma, já que vestiam “rossonero”. Eram do Milan. E queriam que eu jogasse no time deles. A qualquer custo. Minha mãe nem considerou. O que vocês acham que ela disse àqueles senhores?

Quando você é um menino em Roma, há duas possibilidades de escolha: ou você é “rosso”, ou é “blù”. Ou Roma, ou Lazio. Mas na nossa família, a escolha era uma só. Infelizmente não conheci meu avô – ele morreu quando eu era pequeno. Mas ele me deixou um grande presente. Para a minha sorte, o meu avô Gianluca era um grande torcedor da Roma, e transmitiu esse amor ao meu pai, que o retransmitiu ao meu irmão e a mim. O nosso amor pela Roma era algo que trazíamos em nós. A Roma era mais do que um time. Era parte da nossa família, o nosso sangue, as nossas almas.

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Não vimos muitos jogos na TV porque, mesmo em Roma, não eram exibidas sempre, nos anos 1980. Mas quando eu tinha 7 anos, meu pai comprou bilhetes e, finalmente, eu fui ver os “lupi” no Stadio Olimpico.

Posso fechar os olhos e recordar as sensações. As cores, os cantos, a fumaça. Eu era um garoto tão vivaz que só estar no estádio junto a outros torcedores da Roma me despertou algo. Não sei como descrever a experiência…

Belíssimo.

Essa é a palavra.

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Entre nós, em San Giovanni, não acredito que alguém tenha me visto sem uma bola nas mãos ou nos pés. Nas ruas, entre as igrejas, nos becos, jogávamos futebol em qualquer lugar. Mesmo quando eu era jovem, o futebol era mais do que um amor para mim. Já tinha ambições de fazer uma carreira. Comecei nos “giovanili”. Tinha pôsteres e recortes de jornais de Giannini, o capitão da Roma, na parede do meu quarto. Ele era um ícone, um símbolo. Um garoto de Roma, como nós.

E quando eu tinha 13 anos, bateram à porta da nossa casa.

Os homens do Milan pediram que eu me unisse ao time deles. Uma oportunidade de fazer parte de um grande clube italiano. O que eu escolheria?

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Bom, não foi uma decisão minha, obviamente.

Minha mãe era a chefe. E ainda é. E é, digamos, muito afeiçoada aos seus filhos. Como todas as mamães italianas, era um pouco superprotetora. Não queria que eu saísse de casa por medo de que algo me acontecesse.

“Não, não” – disse ela aos dirigentes. “Lamento, mas, não”.

Acabou ali. Minha primeira transferência foi negada pela chefe.

Era o meu pai que nos levava, o meu irmão e eu, às nossas partidas de fim de semana. Mas, de segunda a sexta, o comando era da mãe. Foi difícil dizer não ao Milan. Nossa família teria ganhado muito dinheiro. Mas a minha mãe me ensinou uma lição naquele dia: casa é a coisa mais importante na vida.

Poucas semanas depois, após ter me observado num jogo de juniores, a Roma me fez uma proposta. Eu vestiria as cores amarela e vermelha.

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Mamãe sabia. Ela me ajudou com minha carreira de muitos modos. Sim, era protetora – ainda é! –, mas fez muitos sacrifícios para garantir que eu pudesse estar em campo todos os dias. Sei que aqueles primeiros anos foram difíceis para ela.

Era a minha mãe que me levava aos treinos. Ela me esperava fora do campo, e o teria feito por duas, três e até quatro horas. Debaixo de chuva, no frio – não importava.

Ela esperava que, assim, eu pudesse viver o meu sonho.

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Só soube que estrearia pela Roma no Olimpico 90 minutos antes da partida. Sentei-me no ônibus, do nosso CT ao campo, e minha excitação subiu. A calma que tinha, por ter dormido bem na véspera, sumiu. Os torcedores da Roma são muito diferentes dos outros. Eles esperam muito de você, quando você veste a camisa da Roma. Você tem que mostrar o seu valor e não há espaço para erros.

Quando entrei em campo para a primeira partida, estava sobrecarregado pelo orgulho de jogar pela minha casa. Pelo meu avô. Pela minha família.

Por 25 anos, a pressão – o privilégio – nunca mudou.

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Obviamente aconteceram erros. E houve um momento, há 12 anos, em que considerei ir para o Real Madrid. Quando uma equipe de sucesso, talvez a mais forte do mundo, pede que você vá, você fica pensando como sua vida poderia ser. Falei com o presidente da Roma, e fez toda a diferença. Mas, no fim das contas, falei com a minha família, que me lembro do que trata a vida.

Casa é tudo.

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Por 39 anos, Roma foi minha casa. Durante 25 anos, como jogador, a minha casa foi a Roma. Vencendo o “scudetto” ou jogando na Champions League, espero ter representado e elevado as cores da Roma o mais alto que pude. Espero ter feito com que vocês se sentissem orgulhosos.

Poderão dizer que eu sou um homem habituadinário. Eu só saí da casa dos meus pais depois que me casei com minha esposa, Ilary. Quando olho para trás, para aquilo que perderei, sei que essa será a rotina, a vida de todos os dias. As horas gastas treinando, as conversas no vestiário. Acho que o que me fará mais falta será dividir um café com meus companheiros todos os dias. Talvez, se eu voltar um dia, como dirigente, esses momentos ainda permanecerão.

As pessoas me perguntam: porque você gastou toda a sua vida na Roma?

Roma é a minha família, os meus amigos, as pessoas que amo. Roma é o mar, as montanhas, os monumentos. Roma, obviamente, são os romanos.

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Roma é o amarelo e o vermelho.

Roma, para mim, é o mundo.

Este clube, esta cidade, foram a minha vida.

Sempre.

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Thiago Zanetin tem 30 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Serie A e na Europa.

Imagens: Divulgação.

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