Borussia Dortmund II: quando torcer também é um protesto

Muralha local: contra o RB Leipzig, a torcida do Borussia Dortmund ocupou seu lugar na Red Bull Arena com maioria absoluta de torcedores locais, da Saxônia.
Muralha local: contra o RB Leipzig, a torcida do Borussia Dortmund ocupou seu lugar
na Red Bull Arena com maioria absoluta de torcedores locais, da Saxônia.

No último final de semana, o Borussia Dortmund viajou até Leipzig (antigo “lado oriental”, nos tempos do muro) para encarar o RB Leipzig, debutante na 1. Bundesliga. Não foi um encontro comum. Em primeiro lugar, porque reuniu nas arquibancadas duas das três maiores torcidas da Saxônia. E, em segundo, porque contrapôs duas visões de futebol: o BVB é um fomentador da cultura boleira, que cresce com políticas 100% voltadas aos seus torcedores e ganha status de “modelo cult sustentável”; e o RBL, à parte seus inquestionáveis méritos esportivos, é visto como um clube “maquiado” — comprado e refundado em 2009, então na Quinta Divisão alemã, pela Red Bull (o “RB” de seu nome, ressignificado oficialmente como RasenBallsport, na verdade vem da empresa), o Leipzig não tem maioria popular em sua constituição, contrariando a Regra 50+1.

"Chega de Red Bull": movimento anti-RB endossado por torcidas de toda a Alemanha.
“Não ao RB”: movimento endossado por torcidas de toda a Alemanha.

Esse choque de filosofias (que, no bom e velho “marketês”, é um choque de percepções) converteu o RB Leipzig no clube mais odiado da Alemanha e tem gerado, há muito tempo, inúmeros protestos contra o que se convencionou chamar de “Modelo Red Bull” — criou-se, inclusive, o movimento Neim Zu RB (“Não ao RB”), em boicote ao clube e à empresa. Até o último final de semana, esses protestos aconteciam sempre durante os jogos. A torcida do Borussia Dortmund, porém, fez diferente.

O futebol real do BVB: mais de 8 mil pessoas no jogo do Time-B, da Quarta Divisão.
O futebol real do BVB: mais de 8 mil pessoas no jogo do Time-B, da Quarta Divisão.

Os grupos organizados do Borusia Dortmund boicotaram a partida contra o RB, orientando (orientar não é obrigar, note-se) os demais torcedores a fazer o mesmo. E no mesmo horário que, em Leipzig, uma maioria absoluta de aurinegros saxões ocupavam seus lugares na Red Bull Arena, mais de 8 mil fanáticos borussins do Ruhr enchiam as arquibancadas do velho estádio Roten Erte — sua “ex-casa”, à sombra do Signal Iduna Park — para torcer pelo Borussia Dortmund II, o time-B do BVB, que jogava contra o Wuppertalern, pelo grupo West da Regionalliga (Quarta Divisão). Por não concordarem com a presença do adversário da equipe principal na série principal, preferiram acompanhar os segundos quadros.

A visão do jogo é clara: time-B, mesma marca.
A visão do jogo é clara: time-B, mesma marca.

Foi o protesto mais inteligente possível. Porque foi um protesto de marca. Os torcedores do Borussia Dortmund se posicionaram contra o que consideram errado no “Modelo Red Bull” externando o que consideram certo no “Modelo BVB”: futebol popular, cultura boleira, crescimento a partir das arquibancadas etc. Para eles, o time-B foi um ato de resistência ao footbusiness, que permite a uma empresa comprar um clube, destituí-lo de sua identidade original (o RB Leipzig não carrega sequer um mero traço do que foi o ex-SSV Markranstädt no futebol), trucar uma norma de competitividade (50+1) e, mesmo assim, ser bem recebido entre os grandes do País.

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E não é o caso de desconsiderar paixão legítima que Leipzig desenvolveu pelo RB Leipzig, e que merece respeito (ainda falaremos sobre isso). A crítica aurinegra não é aos seus torcedores. A crítica não é nem mesmo a clubes-empresa — afinal, a 1. Bundesliga conta com “um certo” Bayer 04 Leverkusen. A crítica, aqui, é à maneira de fazer futebol da Red Bull, que já enfrenta oposição radical na Áustria e, mesmo sem ainda ter chegado por lá, na Itália. Que essa seja uma visão “romântica” dos torcedores do Borussia Dortmund? Talvez. Mas é através dela que o clube bate recordes de receita e posiciona-se entre os grandes da Europa. Sua ideologia também merece respeito. E o debate sobre qual modelo deve ter mais espaço, ou se há realmente espaço para ambos, é válido.

Thiago Zanetin tem 30 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Serie A e na Europa.

Imagens: Divulgação.

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