Borussia Dortmund Brasil | Quando a cultura boleira rompe fronteiras

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No último final de semana, São Paulo foi movimentada por mais uma edição da Virada Cultural. Em praticamente todos os cantos da cidade havia uma atração – música, dança, teatro, gastronomia e tudo mais o quanto há. É a diversidade esperada quando falamos em cultura, certo? Mesmo assim, quem passou pela Praça Antônio Prado, colada ao Largo São Bento, entre as 13 e 19 horas do último sábado (22), assistiu a outro tipo de cultura, que não estava no roteiro: a cultura do futebol. Foi lá, no bar Salve Jorge, que mais de 50 fanáticos do grupo Borussia Dortmund Brasil se reuniram para torcer pelo BVB na final da DFB-Pokal (a Copa da Alemanha), contra o Bayern. Futebol Marketing também esteve lá e conta como foi.

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Nosso dia borussin começou por volta das 12 horas, na catraca do metrô São Bento. Foi lá, em meio a um pequeno grupo – todos devidamente uniformizados –, que conhecemos Maiara Batista (29). Palmeirense e aurinegra, ela, se não é a idealizadora do Borussia Dortmund Brasil (você entenderá o porquê mais à frente), é, sem dúvida, uma idealista. “É a maior torcida do clube no Brasil e acredito que fora da Alemanha”, ela comenta. De fato, apenas no Facebook, onde conhecemos a torcida e soubemos do encontro, são quase 40 mil membros – ou quase 50% da capacidade do Signal Iduna Park. “E já fomos maiores”, Maiara conta, “mas, em determinada época, um dos administradores configurou o grupo como ‘secreto’, e não conseguimos reabrir. Tivemos que recomeçar”. Valeu a pena. Como já dissemos, só naquele sábado mais de 50 pessoas torceriam pelo BVB só em São Paulo, sem contar os encontros em outras cidades. Convenhamos, é uma capacidade de mobilização que muitas das nossas torcidas nativas não possuem. E mesmo assim, o Borussia Dortmund Brasil não conta com o reconhecimento oficial do Borussia. Ainda. “Estamos na busca”, diz Maiara. “Como tudo que é alemão, o processo é muito metódico. Eles exigem uma série de documentos. Hoje mesmo nós vamos gravar um vídeo que será enviado para a oficialização”, ela nos informa, enquanto tira de sua mochila um megafone (amarelo, claro).

Quando perguntamos se todos são borussianos há muito tempo, é novamente a resposta de Maiara que contrasta. “Eu conheci o BVB em 2005, numa série de reportagens sobre as sedes e estádios da Copa de 2006, na Alemanha. Fiquei apaixonada pela torcida, queria muito fazer parte daquilo”. Maiara ainda não sabia, mas a torcida era realmente tudo o que o BVB tinha naquela época, em que vivia sob o risco de falência. Como foi torcer na pior? “Eu só fui entender essa quase falência um tempinho depois. Na época eu não tinha muito acesso a informações sobre o clube. Ninguém tinha. Mas quando o Tinga foi do Inter para o Borussia Dortmund, deu uma melhorada no fluxo de informações, pois alguns de seus familiares nos informavam uma coisa ou outra pelo falecido Orkut”. Maiara nos contou que essa troca de conteúdos acontecia numa comunidade chamada “Borussia Dortmund – Brasil”. Seria a mesma que existe hoje? ”Não. Essa comunidade foi criada por um primo do Tinga, que ‘sumiu’ assim que o jogador saiu de Dortmund”. Foi no final de 2010. Tinga voltaria para conquistar mais uma Libertadores pelo Inter – e, por tabela, complicaria muito a vida de Maiara. “Continuei torcendo, mas quase desisti de ter proximidade com o clube. Era praticamente impossível”.

Quem daria jeito à situação, mais uma vez, seria a internet. Apenas um ano depois, sempre no Orkut, surgiria uma nova comunidade “Borussia Dortmund Brasil”, essa sim o embrião do que acontece hoje. Iniciativa de Maiara? De novo, a resposta é não. “Quem criou essa comunidade foi um cara do Rio Grande do Sul, fanático pelo Peñarol e que tinha descoberto ‘outro time aurinegro legal’. Foi na mesma época em que as pessoas estavam migrando do Orkut para o Facebook. Daí, um dos integrantes criou uma página dessa comunidade no Face e outro criou o blog borussiadortmundbrasil.net, que também acabou fazendo uma página e um Twitter”. As idas e vindas de Maiara nessa história só acabariam em 2013, após as quartas de final da Champions. “Estou no grupo de Facebook do Borussia Dortmund Brasil desde o fatídico jogo contra o Málaga. Eu precisava compartilhar o desespero que senti naquele dia. Três meses depois, já me colocaram como administradora da página”. Aos poucos, ela foi se tornando uma líder. “Não entendi muito bem esse senso de liderança que adquiri. Aconteceu e acontece”. Mas dá para entender o porquê. “Os torcedores do Rio Grande do Sul acabaram se separando da Borussia Dortmund Brasil. E, ao mesmo tempo, a gente se sentiu meio desconfortável em continuar contando com o fundador do blog entre os nossos administradores, que também era gaúcho e amigo dessas pessoas. Do grupo de administradores originais, fui a única que sobrou”, ela conta. Existem dois núcleos de torcedores, então? “Isso, não somos a mesma torcida. Eles fazem o trabalho deles e nós, o nosso. Mas é uma relação pacífica, embora distante. E algumas coisas que fazemos pela torcida eles até divulgam”. No fim das contas, é todo mundo Borussia Dortmund.

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No meio da conversa, chegou Marcos Vinícius (22), corinthiano aurinegro de São Bernardo do Campo, região metropolitana do Estado. E, com ele, a conversa se voltou totalmente à final contra o Bayern e ao campo. Marcos é boleiro, tem estatísticas do Borussia na cabeça. “Com a pontuação da Bundesliga desse ano, teríamos sido campeões em mais de 30 edições passadas”, constata, entre orgulhoso e inconformado. Nosso amigo é a antítese daquela conversa que “brasileiro que torce por time de fora é modinha”; o cara sente o BVB na pele. “Quando você gosta, tem que conhecer, se dedicar”, determina.

Enfim, saímos do metrô e vamos em direção ao bar Salve Jorge, a um minutinho de distância. Nosso grupo ainda é pequeno e não nos permite fazer um cortejo como a Muralha Amarela já estava realizando em Berlim, o palco da final, com faixas, bandeiras e coros. Na curta caminhada, as esperanças em Aubameyang e Mirktarian contrastavam com a indignação por Hummels, capitão do Dortmund, estar se transferindo para o seu antigo clube – justamente o Bayern. “Judas!”, esbraveja um. “Traidor!”, brada um outro. “Porra, logo o Bayern? Como ele pôde fazer isso com a gente?”.

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Chegamos ao bar e, aos poucos, as mesas reservadas foram sendo ocupadas. E, no meio das várias camisas PUMA, vimos uma adidas, vestida por Alex. “Nem sei se é retrô ou original, mesmo”, ele conta. “Eu comprei ela numa feira. Não poderia deixar passar”. O patrocínio da Artic não deixa dúvida: é um modelo do triênio 1983-86, quando o BVB escapou de fazer um segundo passeio pela Segundona. Mas isso foi em outra época. Vamos voltar para o nosso sábado.

Marcos estava inquieto. Mal conseguia sentar – parecia que estava no seu estádio, em Itaquera. Perguntamos quando o interesse dele pelo Borussia começou. “Não vou saber te dizer exatamente a data. Eu conheci o Dortmund numa daquelas matérias de internet que mostram ‘brasileiros que se destacaram em grandes clubes de fora’, sabe? Aí, vi o Ewerton, que tinha passado pelo Corinthians, e também o Amoroso, com a camisa do Borussia. Fui atrás e as coisas foram se somando”. A torcida também ajudou no processo. “Eu acho que eles têm um lance muito parecido com ser corinthiano. Os caras sentem o clube na pele. Experimento isso em todo jogo do Borussia. Sofro para caramba”. E de onde vem tamanha identificação? “O Borussia tem a ver com a minha realidade”, começa. “São Bernardo é uma cidade industrial, assim com o Vale do Rhur. O time da minha cidade, o São Bernardo, também é aurinegro. E eu gosto da postura de que o clube é a cidade e a cidade é o clube”. Mas e num eventual Corinthians x Borussia? “Sou Corinthians, sem titubear”. E completa: “É diferente. O Corinthians eu cresci amando, o Borussia eu amo, mas conheci bem depois”.

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Tempo vai, cervejas vêm, e aparece mais gente. Welington, curitibano e também administrador do Broussia Dortmund Brasil, chega animado, cantando em alemão, e “armado” até os dentes, com uma bandeira e um cachecol que mostra todas as taças e títulos do Borussia, ano a ano. “Tomara que fique desatualizado hoje”, comenta. Gilson, que vestia uma camisa 11 com seu nome nas costas, seria o responsável por “abrasileirar” a torcida com o grito de “Ô Ô, Ô Ô, toca no Pierre que é gol… Aubameyang!”. Mas o próximo a nos surpreender seria Felipe (18), que não torce por nenhum clube brasileiro. É 100% Borussia. “O Dortmund me ganhou na campanha do vice da Champions, em 2013″, começa. “De lá para cá, a identificação só cresceu. Tenho até ódio do Schalke”, ele brinca. Mas, e antes, nada de futebol? “Sempre gostei e acompanhei, mas não sentia paixão. Os clubes brasileiros parecem distantes”. É aí que Marcos entra na conversa: “Claro. Você abre a página do Globo Esporte e já vê uma reportagem sobre as tatuagens do Neymar, ou então coloca no Jogo Aberto, da Bandeirantes, e assiste a ‘jornalismo comédia’. Porra, quem quer saber disso? Ninguém fala mais de verdade dos clubes da gente. E outra: com TV a cabo você percebe o quanto o Brasil está errado. Se eu tiver Fox Sports ou ESPN dá para ver quase todos os jogos do Borussia, do Real Madrid, do Barcelona, do Bayern, da Juventus, de vários times de fora. Se eu quiser ver todos os jogos do Corinthians, tem que ser na Globo ou eu tenho que pagar o Premier. A gente não tem opção. Os campeonatos de fora têm mais oferta. Vão crescer mais, mesmo”.

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Faltando pouco para o início do jogo, Maiara encontra uma brecha no nervosismo para olhar em volta e sorrir: já são 40 ou 50 pessoas no Salve Jorge para torcer pelo Borussia. “Já é o maior encontro que fizemos”. A maioria do público é jovem. “Muitos conheceram o Borussia de 2012 para cá”, ela comenta. “Você acredita que, para muita gente, o primeiro contato com o clube foi o FIFA?” – o game da EA Sports. Faz sentido. Simuladores de futebol como esse oferecem a possibilidade de que os torcedores se apropriem e se personifiquem na marca dos clubes. É justamente esse o propósito do Borussia Dortmund Brasil: ser uma extensão da marca, pertencer a ela. Não é trazer Dortmund para o Brasil; é conectar o Brasil com Dortmund – totalmente diferente. Não por acaso, todos vibraram e cantaram quando a TV mostrou a coreografia da Muralha Amarela nas arquibancadas de Berlim. Acredite, o Salve Jorge aurinegro também estava lá.

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15 horas. Finalmente começa o jogo. A TV do local está sem som porque, no andar de cima, um grupo de MPB se apresenta. O sambinha com bossa nova e a narração que não chega entre os lances dão o tom do nervosismo. Cada descida do Borussia é acompanhada por aplausos, gritos e cantos – em alemão e português. Mas é o Bayern que está melhor, mais inteiro. Hummels é xingado em todo momento – “Mas se fizer um gol, a gente perdoa”, alguém grita do fundo. O tempo voa e, nos momentos de maior empolgação, as pessoas que passam pela rua olham para dentro do bar como se perguntassem “Quem é essa gente?” ou “Mas torcem para quem?”. Prazer, Borussia Dortmund.

E se alguém ainda tinha dúvidas sobre o propósito do Borussia Dortmund Brasil, esclareceu-as no intervalo. Reunidos do lado de fora do bar, todos, pulando e cantando como numa arquibancada do Signal Iduna Park, participaram de um vídeo que será enviado para o clube. Maiara, com seu megafone, comandava como se fosse uma chefe ultrà. As pessoas que passavam por lá pararam para assistir. Houve até quem gravou no celular. Quem saiu de cada para ver algum show da virada cultural, assistiu de perto a cultura do futebol. E adorou.

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Não sairíamos mais do Salve Jorge do segundo tempo até as cobranças de pênaltis. E o Borussia também saia pouco para o ataque. Fisicamente arriado, o time contava com uma bola, um contra-ataque. Achou com cinco minutos para o final do tempo regulamentar, mas Aubameyang, de cara com Neuer, perdeu a passada antes de completar. Na falta de gols, Sokratis, o zaguerio grego, era o mais exaltado. Maiara, uma pilha, nem piscava. Felipe mal se mexia. Já Marcos se mexia – ansioso e inquieto. Wellington e Gilson, com ajuda de todos os outros, puxavam músicas, piadinhas e xingamentos. Iríamos para a prorrogação. Depois para as penalidades. Então, nós vimos: ajoelhado, em silêncio, um dos borussianos brasileiros pedia o título à Providência. Ser “modinha” já foi mais fácil, não? Mas ficou para outra oportunidade. A marca da cal condenou o Dortmund ao terceiro vice seguido na Copa da Alemanha. Novo título para o Bayern. Silêncio. E depois aplausos. O Borussia perdeu, mas a Borussia Dortmund Brasil venceu: torceram juntos, permanecerão juntos e crescem cada vez mais em sua mentalidade. De nossa parte, ficam os agradecimentos por termos participado desse dia. Saímos de lá completamente impactados pelo sentimento do que é torcer para o Borussia Dortmund. É isso que importa.

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Thiago Zanetin tem 30 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha com o dia em que as verdadeiras cores gialloblù da cidade voltarão a brilhar na Serie A e na Europa.

Imagens: Thiago Zanetin (1 a 8); Maiara Batista (9)

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