Sobre Botafogo, Porta dos Fundos e a política do não-patrocínio pontual de camisa

a

Utilizar a própria camisa como ponto promocional, confundindo patrocinadores com anunciantes, está entre os pecados mais recorrentes dos nossos clubes. O pior exemplo disso foi visto no Campeonato Carioca, quando o Botafogo cedeu as costas de seu manto, acima e abaixo do número, para seguidas “Liquidações Malucas” do e-commerce varejista Casa & Vídeo – que em algumas oportunidades chegou, inclusive, a baixar o preço dos produtos (smartphones, secadores de cabelo, etc) durante os intervalos das partidas.

bota3

Nada contra o parceiro, sua promoção ou seu mercado de atuação. Aliás, tudo a favor de que novas marcas e grandes setores (o comércio eletrônico segue em franco crescimento no Brasil) se interessem pelo futebol. Toda parceria pontual, porém, precisa, ou deveria, começar prevendo o que “sobra”, qual a percepção de marca e negócios que fica, para o clube. E é dessa reflexão, que, presumimos, não foi realizada no Botafogo, que vem a crítica do vídeo “Patrocínio”, divulgado ontem (28) coletivo humorístico Porta dos Fundos.

O vídeo – que também serviu para “vazar oficialmente” o novo uniforme do Flamengo, assinado pela adidas – não deixa dúvidas: o Fogão pode ter garantido o custo, mas rebaixou o valor das cotas de patrocínio da sua camisa. Pior do que isso, saiu do episódio diminuído por aceitar ser um mero anunciador de produtos. Não há relação entre a marca do clube e o que é mostrado. Não se criaram ou comunicaram valores com o anunciante. Não foi uma parceria. Foi um negócio, uma oportunidade rápida. Virou piada. E com muita razão.

A camisa, como já dissemos aqui algumas vezes, é o maior vetor de marketing dos clubes. À parte as verbas de TV, é a partir dela quem são gerados os maiores negócios – como contratos de fornecimento técnico, acordos de patrocínios, “royalties” sobre vendas e etc. E, acima de tudo, é por ela que o torcedor torce. “Patrocínios-anúncios” do tipo realizado entre Botafogo e Casa & Vídeo traem a percepção que a torcida tem do potencial do próprio clube; basta consultar as redes sociais do Botafogo na época do contrato para confirmar.

botafogo

Entendemos perfeitamente que existiu, e existe, um contexto para que esse negócio tenha sido fechado: um Botafogo já com pouco ou nenhum dinheiro em caixa, e que viu sua situação financeira se agravar após o rebaixamento para a Série B do Brasileirão. Compreendemos, também, que transformar a própria camisa numa seção de classificados não é, e nem foi ou será, uma política exclusiva do clube. E também sabemos que não se trata do primeiro acordo de “patrocínio-anúncio” inadequado no nosso futebol. Os anos 1980 não nos deixam mentir: lembra da ducha Corona na camisa do Corinthians? Ou do Palmeiras estampando as lojas Cassino e Shark, da Galeria Pagé, notório “shopping falsificado” de São Paulo?

Agora, o que todos precisamos entender, compreender e saber, é que os patrocínios devem espelhar o que o clube é, e aquilo que busca. O Botafogo já teve uma experiência ruim, na última temporada, com a TelexFREE – então acusada de pirâmide financeira. E mesmo que não tenha buscado, conseguiu, mais uma vez, colocar sua marca e camisa, literalmente, na Porta dos Fundos. Não tem graça nenhuma.

Thiago Zanetin tem 29 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha sempre em ver as verdadeiras cores gialloblù da cidade brilhando Europa afora.

Imagens: Divulgação

Category: MarketingMercadoNegócios