#Ellevate | Rayo Vallecano terá filial nos EUA. Mas sua torcida reprova

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Do bairro de Vallecas, em Madrid, para os EUA. Seguindo os passos do Manchester City com seu New York City FC, na Major League Soccer-MLS, o Rayo Vallecano também terá uma filial na Terra do Tio Sam: o Rayo OKC (Oklahoma), que participará da “Segundona” North American Soccer League-NASL, a partir de 2016. A franquia, que é fruto de uma parceria entre o presidente e proprietário rayista, Martin Presa, e o empreendedor local Sean Jones – já envolvido em outros projetos boleiros na cidade recentemente -, foi anunciada no último dia 10, e será majoritariamente controlada pelo clube valleco.

A expectativa é de que o Rayo OKC insira na NASL, e, mais amplamente, no futebol dos EUA, o espírito de community club que o Rayo Vallecano criou em Vallecas, onde a torcida e a instituição são uma coisa só, que vai além das arquibancadas. Por isso, o novo clube mandará suas partidas no Miller Stadium, da Universidade de Yuton, ficando desde já em posição de formar torcedores – medida importante para combater as crescentes médias de público que o seu “concorrente” citadino, Oklahoma City Energy FC, vem obtendo na “Terceirona” United Soccer League-USL.

Tudo certo, então, para que o Rayo Vallecano seja o mais novo “clube de bairro da América”? Não para os rayistas mais tradicionais, que reprovam o investimento numa filial americana enquanto a equipe local sofre com caixa vazio e infraestrutura deficitária. Para eles, não há marca alguma para ser expandida, já que o Rayo encontra dificuldades para crescer mesmo em Vallecas. E os valores do clube não têm valor algum se não forem praticados pela sua gente, no seu reduto. Todas essas questões foram pontuadas num manifesto divulgado pela Plataforma ADRV, conforme você lerá abaixo. Quem tem razão?

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Não ao Rayo Ocklahoma.

Infelizmente, não é a primeira vez que um presidente se acha no direito de macular o nome e o brasão da Agrupación Deportiva Rayo Vallecano. Outros já o fizeram antes de Raúl Martin Presa, mas hoje é o dia em que lamentamos aquele que, possivelmente, seja o mais grave insulto à nossa equipe. E isso ao mesmo tempo em que vemos os sócios serem desvalorizados a cada semana; em que vemos o nosso estádio completamente desguarnecido – chegando, inclusive, a provocar situações de perigo, tamanho o descaso; em que vemos nossas equipes femininas se vêem esquecidas no lado mais escuro do futebol não comercializável; em que vemos nossa base, o nosso futuro, ser empurrada para um local onde não recebem a atenção de que precisam e merecem.

É neste contexto que nos vemos obrigados a ouvir o presidente do nosso clube dizer que o Rayo Vallecano deu um passo para crescer, convertendo-se, de forma completamente opaca, em dono de uma das franquias da NASL americana.

Não é a primeira vez que se produz um movimento estranho como este no nosso futebol. O Alavés, nos tempos de Piterman e Tebas (que sempre se moveram nas sombras) já compraram um clube da liga americana. E todos sabemos o resultado daquela experiência: um desastre total – o que provoca mais inquietude na massa rayista.

Nos escritórios do nosso estádio, decidiram que o futuro está numa cidade a milhares de quilômetros do nosso bairro, sem nenhum tipo de relação ou afinidade com nosso o lugar. Martin Presa que nos fazer acreditar que o caminho para o crescimento do nosso time passa pela compra de ações de um clube de uma liga privada dos Estados Unidos. E o mais grave de tudo é que pretende fazê-lo com base nos valores do Rayo Vallecano. Valores que, para ele, são estranhos. Valores que foram irremediavelmente __ à compra e à venda de uma identidade e das cores que são frutos da luta diária deste bairro.

Um ato de puro mercantilismo esportivo, que pretendem nos apresentar como o ato de crescimento de um clube, o qual atualmente sofre com inumeráveis problemas e limites, que não reverberam no mercado estrangeiro. Nenhum vallecano oui vallecana, nenhum torcedor rayista, perdeu nada naquela cidade americana. Onde perdemos, dia a dia, é no nosso próprio estádio: perdemos dignidade, perdemos liberdade, perdemos a oportunidade de levar nossas filhos e filhas ao futebol. Vemos como, a cada dia, a figura do torcedor é achincalhada nesse esporte. Vemos a cada dia como, no modelo futebolístico atual, o pequeno é cada vez mas incapaz de surpreender o grande, assim como o jogo econômico do futebol nos deixa mais de lado.

É óbvio que o Rayo Vallecano precisa crescer, e sua torcida também. É preciso que o bairro de Vallecas vá junto com seu time; é preciso que as crianças que jogam em nossas parques vistam a camisa franjirroja; é preciso que os torcedores se sintam felizes e orgulhosos de poderem levar seus filhos às arquibancadas do nosso estádio a cada duas semanas; é preciso que o nosso clube lute para que o preço das entradas seja respeitoso para os torcedores. Precisamos crescer, sim; mas aqui, em casa, todos juntos.

Martín Presa usou a palavra “crescimento” para se referir a algo que não é mais do que um mero movimento monetário. Dificilmente isso atrairá os garotos e garotas do nosso bairro ao Nuevo Estadio de Vallecas. O dinheiro está matando a paixão e o apoio de milhares de rayistas, assim como os de milhões de torcedores. O negócio mata a paixão, são incompatíveis.

O que Martín Presa fez se chama negócio, e jamais permitiremos que ele o faça em nome do Rayo Vallecano, a nossa paixão. Rayo é Vallecas. Vallecas é Rayo.

O FUTURO DO RAYO ESTÁ EM SUA BASE, NÃO EM OCKLAHOMA.

Thiago Zanetin tem 30 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha sempre em ver as verdadeiras cores gialloblù da cidade brilhando Europa afora.

Imagens: Divulgação

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