CRÔNICA | San Lorenzo de Almagro, novamente de Boedo

san lore 002

A história conta que a Argentina viveu sob ditadura militar no período de 24 de março de 1976 a 10 de dezembro de 1983. Pouco mais de sete anos em regime de exceção. Exceção essa que ainda duraria outros 32 anos em Boedo – um bairro da grande Buenos Aires. Era lá, na Avenida La Plata, que costumava estar o velho estádio Gasómetro, casa do San Lorenzo. Tudo mudou em 1979. Afundado em dívidas, o clube foi coagido a entregar, quase de graça, o seu terreno para o governo. No local, seria instalado um hipermercado da rede francesa Carrefour. E uma angústia profunda se instalou na vida do ciclón.

san lore 0003

Financeiramente no vermelho, e já sem seu principal ativo, o clube foi parar na Segunda Divisão. Subiu, é claro. E, ao longo dos anos, retomaria a normalidade dentro de campo. Mas, nas arquibancadas, nada estava normal. De que barrio sos?, perguntavam, cantando, as torcidas rivais, enquanto a fanática torcida cuerva vagava de estádio em estádio atrás de sua paixão. Somos del barrio de Boedo, poderiam, também cantando, ter respondido; mas seria uma resposta mais de alma do que de razão. O San Lorenzo não estava mais lá. A cultura não estava mais lá. O culto não estava mais lá.

A incômoda sensação de “jogar sempre como visitante” durou até 1994, quando foi inaugurado o Nuevo Gasómetro, no bairro de Bajo Flores. A essa altura, uma nova geração de torcedores, que não tinha sofrido com a expropriação ditatorial, ajudou a construir fortes laços entre o San Lorenzo e sua nova casa. Muitos títulos, incluindo a sonhada Copa Bridgestone Libertadores, de 2014, “saíram” de lá. Mesmo assim, o sonho de estar em Boedo calava fundo nas arquibancadas: Vamos a volver al barrio que a San lorenzo lo vio nacer, ouvia-se, jogo sim, jogo também.

Mas como voltar para Boedo? A solução foi levar as arquibancadas para as ruas. Passeatas. Assembleias. Audiências públicas. Movimentos de torcedores. Atos populares. Tudo para recolocar o tema na pauta, não só do futebol argentino, mas do próprio San Lorenzo. Esse é o ponto: a obsessão da torcida fez o clube acreditar que a volta seria possível. E, juntos, eles encamparam, por anos, a aprovação da Ley de Restituición Histórica, que foi sancionada em 2012 e deu bases legais para o retorno à “Terra Santa”. Bastava recomprar o terreno do Carrefour e pronto. Surgiu, então, uma nova dúvida: com qual dinheiro?

Quem deu remédio à situação, mais uma vez, foi a torcida do San Lorenzo, que aderiu em massa ao plano de “Sócio Refundador” lançado pelo clube, e também a iniciativas populares – como as promovidas pelo coletivo Los Cuervos de Poe -, pagando, metro quadrado por metro quadrado, os milhões de pesos necessários para bancar a volta a Boedo. A partir de então, o povo cuervo passou a viver em infinita ansiedade: todos sabiam que o retorno era iminente, mas ninguém estava disposto. Ou melhor, ninguém aguentava esperar mais. E a espera pesava mais a cada adiamento, cada data tida como certa que não se confirmava.

san lore 004

Chegamos, então, a dezembro de 2015. O fundo para o retorno a Boedo ainda não está completo, mas já é o bastante para que o San Lorenzo faça uma proposta oficial ao Carrefour. Vão-se os torcedores para a entrada do hipermercado. A resposta deve chegar no dia 18; mas, nada. A torcida continua lá. Ocupa. Tem pressão popular, sim. E legal também: a Restituición Histórica está ao lado do clube. Ou a rede francesa se posiciona, ou perde a sede de todo jeito. Será que aceita? Aceita. Aceitou. Acabou. Caiu a ditadura.

san lore 000

Em 23 de dezembro de 2015, o San Lorenzo voltou, de fato, de direito, de tudo, à sua casa, em Boedo. Voltou com os planos de um novo estádio, muito mais moderno do que sua velha cancha com bancadas de madeira e alambrados de arame à frente do campo; mas, ao mesmo tempo, voltou trazendo aquela velha cultura de que en Boedo todo el año es carnaval, un barrio con mucho huevo, que é muy descontrolado. Voltou porque a torcida voltou junto. Sofreu. Sonhou. Lutou. Bancou. Conquistou. Resgatou e mudou a história. Quanto tempo mais até o jogo de reabertura na Avenida La Plata? Não importa. Agora, o tempo está a favor do ciclón. Um novo tempo. Bem-vindo de volta, San Lorenzo de Almagro. E de Boedo.

san lore 006

boedo 2

san lore 007

Leonardo Lepri Ferro

Thiago Zanetin tem 30 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha sempre em ver as verdadeiras cores gialloblù da cidade brilhando Europa afora.

Imagens: San Lorenzo

Category: Marketing