Artigo | Time-B para quê?

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Começamos indo direto ao ponto: para que serve um time-B? “Para movimentar as categorias de base e revelar jogadores”, dirão alguns torcedores; ou “Só para ocupar as vagas de equipes menores, mas tradicionais”, protestarão outros tantos. E nesse choque de percepções, encontramos uma boa explicação (não única, é verdade) para que as chamadas segundas equipes não tenham dado certo no Brasil – ainda que tenhamos tido projetos como o do Palmeiras-B, que fez muitas excursões internacionais e teve sucesso nas divisões inferiores do Estadual, e o recentemente reativado Internacional-B, que, em boas épocas, foi bicampeão da Copa FGF.

Para nós, os times-B têm (ou deveriam ter) dois objetivos principais. O primeiro é ampliar o alcance da marca do clube. Com um calendário apertado para excursões, fora e também dentro do país, uma segunda equipe poderia ser a solução para que o clube não perca negócios e/ou exposição. Foi o que fez o Palmeiras, durante boa parte dos anos 2000, com o já citado Palmeiras-B, que participou de torneios na Europa, Ásia e até América do Sul; e, em menor escala, também com o ex-Palmeiras do Nordeste – parceria firmada com a também já extinta Associação Atlética Independente, atual Feirense Futebol Clube, que, entre 2002 e 2004, conquistou o Campeonato Baiano do Interior e a Taça Estado da Bahia. Com o antigo (ainda não sabemos como será o novo) Inter-B, a lógica também era a mesma: enquanto a equipe principal lutava por grandes títulos, o segundo quadro reforçava a presença do clube junto aos torcedores e mercados do interior gaúcho.

No conceito, excelente. Na prática, quase. Porque, embora os gramados respondessem bem, as arquibancadas respondiam mal. Sobretudo no caso do Palmeiras-B, que, em contraponto aos acessos nas divisões menores do Campeonato Paulista, registrava sempre, rodada a rodada, alguns dos priores públicos dos torneios. E isso nos leva àquela que, para nós, é segunda principal missão de um time-B: oferecer uma experiência diferenciada aos torcedores no estádio. Explicando: quando um palmeirense, ou um colorado, ou um torcedor de qualquer clube, vai ao estádio para assistir a uma partida de sua equipe-B, vai torcer pela marca. Sejamos honestos: um torcedor do Inter tem mais chance de se interessar pelo futebol que verá na Bridgestone Libertadores ou na Segundona do Gauchão? A resposta é óbvia. E a necessidade também: o jogo da segunda equipe precisa ser pensado e vendido diferentemente. Grosso modo, como “uma alternativa da mesma coisa”.

whitecaps

Nesse ponto, ninguém bate a United Soccer League-USL, “Terceirona” dos EUA. Só na atual temporada, o torneio agregou sete times-B de clubes da Major League Soccer-MLS: (Seattle) Sounders 2, (Portland) Timblers 2, (Vancouver) Whitecaps FC 2, Toronto FC 2, Red Bull NY 2, FC Montréal (Impact de Motréal) e Real Monarchs (Real Salt Lake), que se juntaram ao LA Galaxy II, vice-campeão em 2014. Com preços convidativos, e mandos de jogos em estádios bem menores do que os da elite, todos têm registrado bons públicos, mas Sounders e Whitecaps, os que fazem questão de se mostrar como “outra coisa da mesma coisa”, são os que mais têm obtido melhores resultados. Os primeiros cederam 20% de suas ações para um supporters trust, um grupo organizado de torcedores (não confundir com torcida organizada); ou seja, quem vai ao estádio sabe que está prestigiando, literalmente, o seu próprio time. Já os segundos se assumiram como fomentadores do interesse pelo futebol em Vancouver, dando a pessoas que não podem, ou, por qualquer razão, ainda não se interessaram em comparecer a um jogo do Whitecaps principal, a possibilidade de conhecer e assistir ao seu futebol no ambiente familiar de um estádio menor, mais intimista. Resultado: mais de 2 mil especadores nos primeiros jogos como mandante e sold out de 3.208 pagantes em sua estreia no “Thunderburd Stadium”, na Universidade de British Columbia.

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Ao mesmo tempo, o sucesso dos times-B da USL não parece influir no andamento dos “clubes normais”. O recordista de público Sacramento Republic continua, de fato, sendo recordista, e estreantes como St. Louis FC, Louisville, Tulsa Roughnecks têm ocupado regulamente a maior parte de seus estádios – o último, inclusive, já conseguiu lotação máxima uma vez. O mesmo acontece em uma realidade completamente diferente da americana: a alemã. Mais precisamente na 3. Liga (também “Terceirona”), onde o Borussia Dortmund II não ameaça as grandes médias dos tradicionais Dynamo Dresden e Arminia Bielefeld, mas estabeleceu uma maneira diferenciada de cativar cerca de 2.852 fanáticos quando é mandante: seus jogos são uma volta ao passado, e acontecem em sua antiga casa, o Stadion Rote Erde, à sombra do moderno Signal Iduna Park. No lugar de cadeiras, bancadas de concreto. Ao invés da “muralha amarela”, um “corredor” que abraça a pista de atletismo do local, a poucos metros do gramado. Uma experiência completamente diferente, mas que reforça o sentimento de fidelidade e fanatismo que, por assim dizer, tornou-se uma marca da marca BVB.

Como notamos, times-B podem gerar bons projetos. Mas, como tudo, é preciso haver pertinência. Não faz sentido, por exemplo, a recente proposta de inserir B teams na Inglaterra – o que poderia forçar a criação de uma “Football League 3″, outro nível profissional antes de atual Quinta Divisão, Conference -, onde as divisões semiprofissionais e amadoras são fortes e geram grande interesse local. Num mercado como esse, é melhor que um clube profissional se torne parceiro, cedendo jogadores ou estrutura, para alguma equipe menor de sua própria região. E, com isso, adiantamos nossa conclusão: times-B são amplificadores e divulgadores de marca, e, mais até do que revelar atletas, deve gerar experiências para consolidar ou formar novos torcedores. Vale a pena tentarmos de novo por aqui.

Thiago Zanetin tem 29 anos e é redator publicitário na Concêntrica Comunicação e Conteúdo. Fanático seguidor do Hellas Verona, sonha sempre em ver as verdadeiras cores gialloblù da cidade brilhando Europa afora.

Imagens: Divulgação

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Comentários

  1. A ideia é interessante, mas por aqui o ideal seria a criação de times B’s em outros estados, por exemplo, SPFC, SEP, Corinthians, Flamengo, e os demais grandes, montarem equipes em Manaus, ou Rio Branco, Porto Velho, Campo Grande, cidades que tem torcedores destes times, porém pouca tradição a nível nacional. Agradaria suas torcidas destes redutos, revelaria jogadores, e movimentaria o futebol destas localidades.

  2. O grande problema do futebol brasileiro é a falta de planejamento. O exemplo é o Inter, que no primeiro revês o Inter encerrou o time B (perdemos a vaga na semifinal do Campeonato Gaúcho de 2010).
    Concordo com o que o Fernando disse acima, e acrescento que os jogos do time B deveria ser a preliminar do time principal, até que o torcedor “abraçasse” a ideia.