Salernitana: acaba o sonho americano, voltam as incertezas

Haverá futuro para a Salernitana? (Foto: Tutto Lega Pro)

Da esperança de uma ascenção meteórica a uma (nova e) pofunda queda em meio a problemas societários cada vez mais graves: para a Salernitana, clube italiano da cidade de Salerno, que disputa a Prima Divisione, equivalente à Série C, a única garantia é a incerteza sobre o futuro. É o drama de uma marca que perde valor exponencialmente, entre maus tratos e especulações.

No dia 15 de fevereiro, Futebol Marketing informou que o clube granata fora adquirido pela Calà Corporation, especialista na construção de hotéis de luxo, cassinos flutuantes e submarinos, capitaneada pelo empresário Joseph Calà.

Mesmo tendo herdado do antigo dono, Antonio Lombardi, uma sociedade à beira da falência, o novo proprietário ítalo-americano tinha grandes planos em mente: cotação de ações em bolsa, criação de canais de comunicação próprios e o retorno à Serie A em três temporadas, a começar da atual. Os sonhos de glória foram até o dia 22 do mesmo mês; neste meio-tempo, Calà percebeu que a situação da Salernitana era muito mais grave do que parecia. E, desde então, as notícia (ruins) têm se sucedido de tal forma que seriam necessárias atualizações quase diárias.

Ao que tudo indica, Calà e Lombardi não chegaram a um acordo sobre quais eram seus encargos: ao assumir o controle, o ítalo-americano negou-se, por exemplo, a quitar valores que a antiga propriedade prometera a alguns jogadores, à parte de seus vencimentos – atrasados. Do seu lado, Lombardi condicionou a validade do contrato de cessão a um pagamento de € 1,5 mi. Nada foi pago: nem o valor de ativação contratual, muito menos os salários e encargos.

O pacote societário da Salernitana voltou às mãos de Lombardi, representado pela Energy Sport. A manobra foi necessária pois, não concluída a passagem a Calà, eventuais responsabilidade legais recairiam sobre o então antigo (e agora novo) proprietário. Quase imediatamente, foi aventada e desmentida uma nova passagem das ações, desta vez para um consórcio napolitano. Dias mais tarde, declarava-se que um outro consórcio pretendia adquirir o clube. Nomes, porém, não se ouviram. De cifras, sim, falou-se, mas sem precisão: especula-se que o passivo da Salernitana gire em torno de € 9 a 10 mi, e que a manutenção imediata do clube esteja atrelada a pelo menos 30% deste valor.

No ápice do período de especulações, as turbulências internas se agravavam: há meses sem receber, os jogadores ameaçaram formalmente o clube granata de processo. Eles, afinal, estão fazendo sua parte, uma vez que a Salernitana ocupa a quarta colocação no campeonato, em plena zona de play offs; e, à força das incertezas societárias, veem seu trabalho ser desvalorizado – as irregularidades administrativas ja custaram quatro pontos de penalização à equipe, uma posição na tabela, em termos práticos. E, nas atuais circunstâncias, é justo afirmar que a Salernitana falseia a disputa, já que conquista resultados importantes em através de um elenco que não tem condições de manter.

Não existe expectativa de resolução imediata para os problemas da Salernitana. Para se ter uma ideia do atraso financeiro do clube, na última semana foram quitados compromissos relativos a outubro de 2010. Fala-se na aproximação de um novo sócio, o enésimo especulado nos últimos 30 dias. Seja ele quem for (e se realmente adquirir cotas) terá de fazer um esforço importante logo no inicio de sua aventura: o próximo dia 31 é a data-limite para que a Co.Vi.So.C – órgão que fiscalizador ligado à FIGC – dê um novo parecer sobre as situações financeiras dos clubes e aprove suas recapitalizações. A menos que surjam grandes novidades, os já irreversíveis danos à imagem e marca da Salernitana correm sério risco de serem completados com uma nova falência – que seria a segunda, em seis anos – no final da temporada.

Fontes: La Città di Salerno e Tutto Lega Pro.

Thiago Zanetin (@th_dellascala) tem 25 anos e trabalha como redator publicitário na Babenko. Fanático seguidor do Hellas Verona, espera ansiosamente pelo dia em que as verdadeiras coresgialloblù da cidade voltarão a brilhar nas séries maiores.

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Comentários

  1. Wow. Que coisa.
    Isso aconteceu com a Fiorentina não foi? Quebrou e caiu pra 3a. 2002 se não me engano.

    Por um lado é uma pena ver times que têm história numa situação deplorável. Como dito no texto, até mentirosa.

    Ao mesmo tempo, é bastante interessante ver o quanto o negócio do futebol é levado a sério e tem suas obrigações no exterior (diferente do Brasil que tudo pode e é uma zona).

    Belo texto. Belo blog! abss

  2. Salve, Fi.

    Com a Fiorentina o problema foi ainda mais agudo, porque o clube – comandado por Cecchi Gori – quebrou na mesma temporada em que caiu para a Serie B, 2001-02. Houve um esforço tremendo dos irmãos Della Valle para resgatar o título esportivo, com sucesso, mas não os direitos sobre a marca; ou seja, a Fiorentina ainda existia juridicamente, mas não poderia utilizar seu nome fantasia. O recomeço só foi possível a partir da 4ª Divisão (Serie C2) com o nome de Florentia Viola e, depois do título e de uma repescagem para a Serie B, os direitos de marca foram reestabelecidos.

    Infelizmente, essa dita “responsabilidade empresarial” não tem ajudado a sanar as deficiências de estrutura do futebol italiano. Antes do início desta temporada, 20 clubes, entre a Serie B e a Lega Pro, foram à falência; um deles, a Pro Vercelli, precisou se fundir com a Pro Belvedere para sobreviver; e já existem outros candidatos a quebrar – Salernitana e Sangiovannese.

    Abraço, continue com a gente.