Foggia produtiza a história para se reerguer

Os fãs mais ardorosos do futebol italiano se lembram bem de um time do Foggia, que, entre 1989 e 1994, saltou sem ver da Serie C1 (atual Prima Divisione, a terceira divisão geral) à Serie A, onde ficou por três temporadas seguidas incomodando os grandes clubes. Era um divertimento. Jogadores jovens, futuras grandes estrelas – como Signori, Baiano, Di Baggio e Rambaudi – faziam um jogo de puro ataque e velocidade, sem se preocupar com quantos gols tomassem, contanto que marcassem um a mais. Por trás de tudo, em técnico tcheco, figura boêmia, com ares de folclórico: seu nome era Zdenek Zeman, e seu estilo ficou tão particularizado que, àquele time, deu-se o nome de Zemanlandia.

Aquela era de ouro acabou no final da temporada 1993-94, quando Zeman foi dirigir os clubes da capital. O Foggia perderia seu então patrono, Pasquale Casillo e seu competente diretor esportivo, Peppino Pavone, e atravessaria um período decadente, que se estende até hoje; de lá para cá, as únicas alegrias da cidade foram as conquistas de uma Serie C2 (quarta divisão) e uma Coppa Italia Serie C. Temporada passada, o clube esteve a um minuto de cair para a Seconda Divisione. Acostumados às desilusões, os torcedores apelavam cada vez mais ao passado manter seus laços de identificação com o Foggia. E, entre todas as boas lembranças, a que mais contentava era justamente a Zemanlandia, época em que o clube e a cidade foram realmente importantes.

16 anos depois, novamente na terceira divisão, o Foggia tenta reconstruir o período mais glorioso de sua história. Os personagens são os mesmos. Casillo readquiriu o clube, em 14 de julho, e convocou Pavone e Zeman para reeditar o projeto, de reconstrução da marca Foggia e reidentificação do clube com a cidade. O efeito foi imediato: mais de mil torcedores estiveram no estádio Zaccheria para a apresentação de Zeman e o fato foi notícia em toda a mídia esportiva italiana.

O clube, que já ganhava em imagem e exposição, também soube converter o seu maior ponto fraco em diferencial: não possui recursos para formar um patrimônio de jogadores, o Foggia teve de recorrer a empréstimos para montar o elenco. De preferência, deveriam ser jogadores juvenis, que têm salários menores e, em um futebol internacionalizado como o italiano, encontram pouco espaço nos times principais de seus clubes formadores. O fato de Zeman e Pavone terem expertise no trabalho com este tipo de jogador transformou o Foggia em um catalisador de empréstimos de jovens promessas: os clubes das séries maiores que cederam os atletas ao clube o fizeram com a certeza de valorizar seu patrimônio; e o Foggia, por sua vez, receberá incentivos financeiros da Lega, por escalar jogadores jovens.

Outro ponto de destaque foi a conversão de um ameaça do início da temporada em ação de valor efetivo. Graças à punição da temporada passada, o Foggia jogará seus três primeiros jogos no estádio Zaccheria com portões fechados; se, por um lado, isto tira do clube a possibilidade de renda, por outro, faz crescer, e muito, a expectativa para o reencontro do torcedor com o técnico Zeman. Mais do que isso: no último domingo, o Foggia estreou na Prima Divisione goleando a Cavese, fora de casa, e recebeu elogios rasgados de toda a imprensa. Todo este clima de ansiedade faz com que a Zemanlandia seja desejada a cada minuto, e já se confirmou na venda de carnês para a temporada: na última contagem divulgada pelo clube, ultrapassavam as 2.500 vendas, para um objetivo final fixado entre 4.000 a 5.000 inscrições.

A diferença fundamental entre a Zemanlandia do passado e do presente é, justamente, o tempo entre elas, que transformou a lembrança em um desejo. Como sabemos, o desejo é a satisfação de uma necessidade que acontece de modo especial, é dirigida para um público específico e não lida com preço, e sim com valor. Hoje, a Zemanlandia é um produto especial, que pertence somente ao Foggia – tanto é verdade que, quando Casillo, Pavone e Zeman se reencontraram no Avellino, em 2002-03, o projeto não decolou e o clube acabou rebaixado. Para milhares de pessoas em Foggia, o desejo de rever o clube brilhar, divertir e dar mais importância à cidade já está acontecendo, e é tão grande quanto impagável. Ainda falta muito, é verdade; mas o primeiro passo já foi brilhantemente executado: o Foggia é, de novo, o clube da cidade, de seus moradores e, ainda que em menor escala, uma pequena realidade do futebol de província da Itália.

Thiago Zanetin

Publicitário e fanático pelo Hellas Verona.

@th_dellascala

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